terça-feira, 4 de junho de 2013

Corrida do Mirante, 2 de Junho de 2013

Passada que foi aquela semana após a minha desistência no Ultra Trail de Portalegre no dia 18 de Maio regressei agora a Ota para participar em mais uma edição da corrida do Mirante. A semana que antecedeu esta prova foi de algum relaxamento e de teste para ver como estava o tendão do joelho que me atormentara em Portalegre, o fisioterapeuta mais uma vez tinha razão e as mesinhas que me receitou resultaram em pleno (pelo menos até agora) e pude testar nesta prova que o problema surgido poderá estar em vias de cura total. Creio que é uma boa notícia numa altura em que ainda tenho 3 provas para realizar este mês e que visam preparar a última da série (Serra da Freita de 70 kms) no final do presente mês.
Ota é também um local em que regressarei sempre, mesmo que por qualquer motivo não possa correr, os amigos que lá tenho, em especial o Alexandre Beijinha, justificam esta opção mas como já afirmei em ocasiões anteriores Ota é também uma terra que me marcou na minha meninice, batizaram-me lá com 3 anos na Quinta de Ota, um edifício imponente da família do D. Vasco, um aristocrata monarca dono de parte da vasta charneca que se espalha para norte passando pelo Casal do Salgueiral a apenas 3/4 kms onde vi pela 1ª vez a luz do dia, sim porque naquele tempo nascíamos em casa, porque de burro não conseguíamos chegar a tempo a Lisboa!
Hoje sei mais coisas porque em frente do café central da Ota vi lá uns "velhotes" sentados e entendi falar um pouco com eles, perguntei pela minha "tia" Alzira, era assim que a chamava pois na realidade era uma prima mais afastada, que morava ali num dos becos da Vila e disseram-me que já tinha abalado para o além e que os filhos dela, que não conheço, viviam de boa saúde e só um deles ainda andava por ali, depois dizem-me ainda que da Quinta da Ota tudo se mantém igual, excepto a "família real" de então que foi perdendo elementos até aos dias de hoje restando apenas os netos como herdeiros e residentes desta imensidão de propriedade. Tenho a vaga ideia de fazer parte de um grupo de crianças que a pretexto de nos batizarem ali almoçámos num imenso salão que tinha a meio uma enorme mesa onde nos sentaram para comer uma sopa (um caldo verde) não sei se a mesa era grande por eu ser pequeno o que sei é que jamais esqueci aquilo e tinha apenas 3 anos. Da sopa recordo bem até porque eu estava habituado a comer sopa à base de cardos e aquela por ser diferente sobe mesmo bem, não mais a esqueci. Um dia gostaria de lá voltar e visitar aquela Quinta, pode ser que os herdeiros tomem conhecimento deste meu desejo e me convidem a visitar aquela casa que para mim ainda é um mistério gravado desde criança.
Gostava de ter continuado a falar com aqueles "velhotes", conheciam os meus avós maternos e alguns tios que moraram no Salgueiral, eles próprios profundos conhecedores daquela imensidão de terras que a Charneca abarca, a Quinta das Torres onde também morei ainda em pequeno, o Monte Redondo com toda a sua história, a Serra do Ajojo ali ao lado onde um dos meus tios transformava a madeira de azinho em carvão e tirava daí o seu sustento, o Zé Cartaxo e os Carvoeiros eram também filhos da terra, a Quinta do Archine e a Vidigueira eram outros locais que vieram à memória. Ota era e é uma terra pequena mas muito familiar, é talvez por isso que nesta altura se mobilizam para integrar a comissão organizadora desta corrida que anualmente nos recebe. Quanto gostaria de estar ali mais tempo à conversa com aqueles amigos veteranos que vivem e confraternizam nesta bonita terra, a partida para a corrida estava quase a ser dada e por pouco não me esquecia dela.
Encontrei de novo ali muitos amigos, muitos deles estiveram comigo em Portalegre, daí o interesse de muitos em saber se estava ou não já recuperado, claro que sim dizia eu a todos.
Destaco aqui antes da partida a homenagem que a Organização fez à Analice a consagrá-la pelos seus feitos ao longo da carreira como atleta, particularmente pela sua participação em algumas provas míticas onde só os super dotados são capazes de ultrapassar.
A prova era curta, curta demais para testar as minhas limitações do momento, estes 12,750km transformaram-se numa coisa que gosto pouco, velocidade e esforço físico em demasia, mas não tive alternativa e desde o princípio procurei não me atrasar muito porque éramos cerca de 300 à partida e ao fim de 2 kms estávamos a atravessar o rio onde só um de cada vez conseguia passar com a consequente fila de atletas que se formariam quando lá chegássemos, bem dito bem feito, quando lá cheguei até foi bom pois já ia cansado e sempre deu para descansar um pouco e aguardamos depois calmamente a nossa vez de passar mas havia ali um diabinho que paulatinamente ia passando por nós, era a Analice que se foi plantar mesmo à minha frente, tal como os outros não me importei, mas chegados à água a Analice ou não viu os marcos por onde devíamos colocar os pés ou não viu que aquilo era um rio, foi a direito e caiu no rio, teve a destreza de reagir de imediato e segurou-se antes de se espalhar ao comprido,
disse-me depois que não viu a água e para evitar os paralelos foi a direito, depois seguiu paulatinamente serra acima correndo, eu também tentei mas ao fim de 5 metros já estava andando e só a muito custo é que voltei a correr já perto do local onde estava destinado irmos almoçar. Como estava a sentir-me bem aproveitei as subidas sem fazer grande esforço, andava e corria onde isso para mim era possível, foi assim que cheguei perto da Otília, ela era para mim aquele momento uma referência, e assim seguimos até ao abastecimento dos 5 kms, ali encontrava-se já o Luís Miguel e logo aproveitou para me desafiar a concluir os kms que faltavam como se estivéssemos em Portalegre, Então faltavam cerca de 12 kms para chegar aos 100, sim senhor vamos a isto, a Otília alinhou e aí vamos nós encosta abaixo, encosta acima até perto do final onde a minha falta de velocidade não conseguiu acompanhá-los de perto, na rampa final a 200 metros da meta reagrupámos por gentileza deles para comigo, nada fora combinado e adorei correr e chegar na companhia destes dois grandes amigos que ganhei ao longo dos tempos. 
O tempo final registado foi muito bom 1,35,56h. para os 12,750kms do percurso.
Se todos levassem a garrafa na mão evitava-se o espetáculo
degradante deixado no local
Uma nota importante
Espero que todos tenham tomado conhecimento de algumas chamadas de atenção feitas pela Organização devido a algum comportamento menos correto de alguns atletas ao deixarem em vastas zonas do percurso muito lixo e garrafas vazias por ali espalhado, aquilo é um local muito bonito e faz parte da nossa Natureza e deve ser respeitado por todos, não custa nada!!!
Seguiu-se o almoço no Parque de merendas junto ao Mirante, como sempre muito bem organizado a distribuição do Kit alimentar a todos os participantes num ambiente espetacular onde a confraternização foi possível entre muitos amigos que por lá estiveram. A satisfação foi geral ficando a vontade de todos lá voltarem nas próximas edições.
Classificações

6 comentários:

Susana Adelino Pinto disse...

Essa história da sopa creio que ainda não tinha ouvido :) já lá vão 61 anos e não te esqueceste! Temos que lá passar um dia, beijos

Jorge Branco disse...

Bonito texto onde se mistura as recordações de infância como uma prova que demonstra a excelente recuperação deste meu grande amigo que para mim é uma referencia maior quer como corredor quer como ser humano!
Um forte abraço.

Mário Lima disse...

Joaquim

Afinal Ota e tu estão umbilicalmente ligados. Uma história muito curiosa e não há dúvida que certos momentos da nossa vida ficam marcados na nossa memória mesmo que se tenha 3 anos.

Um bom recordar numa prova que teve o mérito de ano após ano, congregar já um número muito apreciável de atletas numa prova tão curta.

A simpatia da organização, e o almoço convívio contribui para que assim seja.

Uma boa prova da tua parte tendo em conta uma outra e a lesão que te fez desistir mas não vencer-te, pois de novo lhe irás dar luta e o acompanhar desses dois amigos que são mesmo isso... Amigos!

Gostei da referência às garrafas de água colocando uma foto minha e da companheira que ia comigo, ambos com a garrafa na mão. A natureza sabe que pode contar connosco pois se há pessoas que não a respeitam nós não pertencemos a esse lote.

Grande Abraço companheiro. Bons treinos e que o objetivo Freita seja conseguido.


Unknown disse...

Caro Joaquim, fico satisfeito por estar de volta e completar mais uma prova. Em Portalegre fiquei triste pois soube da sua desistência a 10KM do fim, deixou-me com a sensação de falha pois se estivesse noutros abastecimentos talvez o ajudasse mais. Paciência a prova era comprida e tentamos estar em todo o lado!!! Relativamente à lesão espero que alivie, embora por vezes no local onde é pode tornar-se chata, sobretudo quando se dá muita sobrecarga. Atenção a isso. Continuação de excelentes provas!!!! se precisar de algo é só dizer! Vou estando atento à sua performance.

Carlos disse...

Embora se perceba, o comentário anterior foi do Fisioterapeuta Carlos que o assistiu em Portalegre

joaquim adelino disse...

Amigo Carlos (Fisioterapeuta)mais uma vez lhe agradeço o apoio que me prestou durante a prova, nomeadamente aos 40 e aos 50 kms de prova. Depois consultar um Fisioterapeuta na 2ªfeira seguinte confirmou-se que se tratou de uma inflamação num dos tendões mencionados, o gelo e o repouso durante essa semana foi o suficiente para recuperar, depois disso já fiz duas provas, uma delas em Ambiente hostil, sem que tivesse qualquer reação negativa.
No convento onde desisti a dor já ia pela perna a baixo e não tinha condições para continuar, creio que se tivesse tirado aquelas ligaduras e aliviado a pressão talvez desse para continuar, mas isso sou eu agora a adivinhar. Não fiquei abalado com a desistência, o limite acabou ali e aceitei bem a decisão, que foi apenas minha. Abraço e obrigada e peço-lhe que não se recrimine, pois fez o que lhe era possível.