quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Ultra Trail dos Abutres, 3ª Parte

Após a queda levantei-me lentamente e vi que estava inteiro, só feri a parte do joelho que estava destapada mas não dava para grandes preocupações já que a rótula não tinha sido afectada, de seguida voltei à corrida com cuidados redobrados já que o carreiro era fundo e muito estreito com a agravante de ser a descer, aqui os bastões foram um auxiliar muito importante já que permitia aliviar um pouco a carga sobre os já depaupurados joelhos. Mal tínhamos começado a percorrer o novo percurso, os tais 13 kms acrescentados à Edição deste ano, as dificuldaes começaram logo a aumentar com o aparecimento de uma descida terrível apimentada com cerca de 20 sucalcos, uma espécie de muros em terra batida com desnível de mais de 50% e com cerca de 2 metros de fundo, para muitos descer aquilo era a mesma coisa que fazer SCU na Serra da Estrela pois não havia outra forma de o fazer. o Jorge já resmungava a plenos pulmões atrás de mim e eu ia descendo já cheio de dores nas articulações dos joelhos, olhei para o fundo e vi aquilo espalhado por ali abaixo vaticinei logo que iria sair dali muito mal tratado, mas segui e o Jorge ia lentamente descendo cada um daqueles sucalcos, de repente passa por nós a Célia Azenha que nem um foguete, estava no seu terreno preferido que são as descidas, tinha-a ultrapassado cá bem para trás durante as duras subidas que enfrentámos e por isso vi logo que uma prova com aquelas carateríscas está bem talhada para ela.
Ultrapassado aquele "mimo" continuámos a descer a Serra na mesma encosta que subíramos até aos 800 metros mas agora num grau mais acentuado na vertente de descida, de súbito surge-nos um corta-fogo que era uma autêntica auto-estrada com muita terra e pedra solta cuja extensão se perdia de vista e muito acentuada, aqui os bastões mais uma vez ajudaram-me bastante, tentei correr naquela brutal descida mas aquilo que consegui foi seguir num ligeiro trote já que os joelhos mais não permitiam, mais atrás o meu camarada de corrida continuava a praguejar e a ameaçar que iria parar pois não conseguia correr com as dores que sentia em todas as articulações dos membros inferiores, desejava chegar para dizer umas coisas feias ao Vitorino, claro que entendi isso como um desabafo mas em termos psicológicos pouco resultou porque passado uns instantes já me estava a dizer que não conseguia e para eu seguir, continuei por mais alguns momentos por ali e ia de vez em quando olhando para trás a ver se ele vinha, mas não, vinha descendo muito devagar e a andar tomando eu então a decisão de prosseguir  sozinho naquele meu suplício pelo corta-fogo abaixo, via-se ao fundo Miranda do Corvo local de onde tínhamos partido ácerca de 25kms e ainda faltava mais 20 para lá chegarmos. Mas a descida implacável continuava tendo-se agravado a sua inclinação nos últimos 200 metros que para eu responder não tive outro remédio senão descer o resto a andar tendo cuidado de onde punha os pés sob o risco de voltar a cair.
Olho para trás e já não vejo o Jorge aquela inclinação final não me permitia vê-lo e por isso prossegui. Não tardou muito que após andar um pouco no plano para a esquerda voltámos a apontar ao alto da montanha para voltar quase até ao ponto onde desviáramos para percorrer estes 13kms, enfrentámos então uma subida duríssima, tinha pouco antes ultrapassado 3 atletas e seguia agora rampa acima com determinação ajudado pelos meus bastões, cabe aqui acrescentar que a utilização dos bastôes permite uma economia de esforço na ordem dos 35% já que o auxílio dos braços é determinante na divisão do esforço necessário, ainda assim é necessário também ter uma boa preparação muscular para enfrentar  aquela brutal subida. Esta subida não contorna a Serra, vai a pique por um pequeno corta fogo com muitos ramos de arvores caídas obrigando-nos a fazer grande ginástica para ultrapassar aquilo. Num ponto já muito alto volto a olhar para trás e continuo sem ver o meu companheiro, aqueles a quem tinha ultrapassado iam parando de vez em quando para recuperar forças, sigo agora numa zona ainda a subir mas onde se pode já correr um pouco, os meus joelhos recuperaram um pouco na subida e permitiam-me agora correr sempre que a inclinação da Serra o permitisse. Chega o abastecimento dos 30 kms a mesa estava bem recheada de de comida apropriada para nos alimentar do esforço já dispendido, depois de me considerar satisfeito, e não é preciso muito, peço ajuda aos bombeiros para me fazerem o curativo das feridas que trazia desde a queda, coisa que uma simpática bombeira fez com muito carinho.
Sigo depois de novo Serra acima com o pensamento no Jorge que provavelmente iria ficar por ali... ao mesmo tempo pensei no meu colega Paulo Portugal e se ele teria tido o bom senso de parar num dos abastecimentos e ficar por ali, e neste meio tempo já estou de novo perto dos 700 metros de altitude quando a Dina Mota me alcança e mais um amigo das Lebres do sado que a acompanhou sempre, aproveito e sigo com eles com alguma dificuldades mas consigo apanhar o passo até àAldeia de Gondramaz, a descida foi longa até atingirmos esta Aldeia e de novo os joelhos a obrigarem a ter algum cuidado, ainda assim consegui aquela companhia tão preciosa até chegar ali. Parei ali mesmo e descansei um pouco pedi para me tirarem uma foto junto daquela pequena mas bonita Aldeia tendo até pedido a um miúdo que ficasse a meu lado enquanto pai nos fotografava, mas o meu encanto por aquela Aldeia não ficava por aqui e enquanto corria ao atravessar a Aldeia ia filmando com a minha pequena máquina aquela maravilha para o meu arquivo pessoal ao mesmo tempo que arfando ia falando com alguma pessoas  que me ia cruzando. Dali até à meta faltariam uns 13 kms, 8 deles em descida brutal e ainda não sabia que o pior estava para vir. Conhecia a descida do ano anterior e era essa que eu imaginava que tinha pela frente, puro engano, como estava bom tempo a organização traçou um percurso alternativo pelo Penedo dos Corvos na distância aproximada de 1 km, isto é, subimos um pouco acima do nível do Ribeiro até atingir os penedos e por ali andámos saltitando de pedra em pedra agarrados a correntes e cordas com o perigo sempre presente face aos precepícios que constantemente nos surgiam ora de frente ora de lado, eu ali andei quase a rastejar com escorregadelas constantes tentando minimizar algum estrago maior, qualquer queda ali seria fatal.
Alcancei um casal que seguia à minha frente, ela à mais pequena dificuldade já não tirava o trazeiro do chão fazia-se escorregar, havia muita lama e as pedras eram escorregadias e por isso nem sei como aquilo já não ia tudo rôto, consegui livrar-me daquele suplício já com os joelhos de novo em muito mau estado, pensei no Filipe e no Hernâni ainda com pouca esperiência em Trails e ainda por cima com esta dureza, como não cheguei perto deles presumi que se estariam a dar bem com aquilo.
Atinjo de novo a orla do Ribeiro depois de descer nem sei como aqueles montes de pedra e lama numa percentagem de descida a rondar os 50%, quase a pique, e sigo agora Serra abaixo por trilhos mais acessíveis e onde se podia de novo correr. Até à Aldeia de Espinho onde estava o último abastecimento ainda encontro pelos 36 kms de prova uma equipa de bombeiros que ali mesmo à beirinha do Ribeiro tinham a mesa bem composta e uma fogueira a seu lado onde tinham acabado de assar um chouriço da Região, não me fiz de rogado e abanquei logo ali, estava com 8 horas de corrida e a fome já era muita, mas bastou duas rodelas de chouriço, pão, um pouco de água e a simpatia  daqueles rapazes para que saísse dali com a barriga aliviada e o coração cheoi de gratidão. Até ao abastecimento em Espinho situado no sopé da Serra fui quase sempre acompanhado com alguns atletas que já trazia desde os rochedos dos corvos, ali chegado já sozinho, tínha-os deixado para trás, parei apenas 1 minuto tempo suficiente para comer um pedaço de marmelada e beber um copo de água partindo logo de seguida, faltavam 5 kms para a meta agora num percurso quase todo ele plano e acessível a fazer-se em passo de corrida, já perto de de Miranda sou ultrapassado por dois dos meus companheiros anteriores de corrida, vinham muito bem e não fui capaz de os acompanhar e segui no meu passo que era já de grande sacrifício. 
À chegada invadiu-me uma grande satisfação e em certos momentos a emoção apoderou-se de mim, subia agora aquele pequeno monte como que a despedir-me daquela linda Serra e dos tremendos sacrifícios que lá passei. no alto deste pequeno monte lá estavam alguns amigos a dar uma forcinha moral para aqueles metros finais, parei junto deles emocionado comprimentei-os, já tinham chegado e ali estavam eles à espera dos que ainda iam chegando, a seu lado mais 3 trailrs espanhóis também me filicitavam fui junto deles e agradeci e só depois é que me lembrei que ainda não tinha cortado a meta, 200 metros à frente entrei no Pavilhão e fiquei maravilhado, uma volta de honra e a meta ali mesmo a meio do recinto, estava feliz e o spiker logo tratou de me arrancar algumas palavras sobre a prova, creio que não disse nada de jeito e até parece que não estava ali, tinha acabado de fazer a prova mais dura que tenho memória e também aquela mais longa que fiz até hoje. De seguida aparece-me o Filipe e de novo tenho dificuldade em falar, recupero um pouco e então pergunto pelos outros e fico ainda mais contente por saber que tudo tinha corrido bem com eles, o Filipe fez um tempo muito bom 7,39h. o Hernâni 8,17h. e o Paulo tinha desistido aos 30 kms.
O Jorge Pereira acabou por chegar à meta não se deixando vencer pelas dificuldades que foram surgindo.
Dada a inutilidade do meu Garmin nesta prova tive dificuldade na obtenção exacta dos números conseguidos por mim, entre os 44,800kms de alguns e os 46kms da Carmen andará o meu registo de kms, no final obtive a marca oficial de 9,00,27h. (o 2º maior tempo utilizado por mim em provas depois da Serra da Freita onde gastei 9,20h. para percorrer 40 kms).
Já muito foi dito sobre a prova, partilho da opinião que esta será das mais duras e difíceis que por cá se vão fazendo, compará-la à Freita talvez seja despropositado mas salvaguardando as devidas proporções não tenho dúvidas que as supera todas.
Voltarei em breve nas terras de Sicó. 

7 comentários:

Jorge Branco disse...

Estive à espera do final da saga para comentar.
FANTÁSTICO!
Um grande campeão! Que fibra!
PARABÉNS!
(Amanhã vai um destaque no UK para a sua enorme odisseia!).
Grande abraço.

joaquim adelino disse...

Obrigado amigo Jorge, esta mereceu um pouco mais de alarido tal não foi o tareão que levei, felizmente está tudo bem agora mas os joelhos sofreram muito com aquelas descidas diabólicas e outras artimanhas espalhadas ao longo do percurso. Foi das coisas mais bonitas que fiz até hoje. Aquela rapaziada dos Abutres conseguiu elevar a nossa capacidade organizativa para níveis muito elevados, não admirando que daqui a pouco se transforme aquele local na capital do Trail em Portugal. Hoje já me encontro em boas condições físicas e a pensar na Maratona de Sevilha daqui a 18 dias e em Sicó na semana seguinte.
Abraço e estarei atento ao seu UK.

Susana Adelino Pinto disse...

Pai muitos Parabéns! Não tenho palavras... um beijinho

João Paulo Meixedo disse...

Ufa, finalmente acabei de ler. Este Ome é um sinhôr! ... como se deiz cá na Imbicta.
Orgulho em ser teu amigo.

joaquim adelino disse...

Susana não precisas dizer mais, o pouco que disseste tem muito significado para mim. Um beijinho.

joaquim adelino disse...

João reconheço que estendi de mais o lençol, mas aquele extraordinário Trail merecia que o registasse da forma como eu o vivi e sofri como nunca tinha acontecido, nem aqueles 40 kms da Freita me deixaram tão empenado. espero voltar lá e continuar a ter a vossa companhia. Abraço.

Mário Lima disse...

Joaquim

Depois de ler esta tua Odisseia por terras abútricas, eu que pensei um dia fazê-la não me vejo por agora ali.

É necessário muito treino específico, é necessário muito espírito de sacrifício, é necessário ser aquilo que atualmente não sou. Sofrer sim, mas devagar! Uma prova dessas não é para todos.

Parabéns!