quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Ao encontro da História ao fim de 36 anos





60 anos é uma imensidão de intermináveis momentos que vividos intensamente justificam a existência passageira de quem como eu não programa em demasiado o evoluir do seu caminho, deixando que até ao último dia a vida vá acontecendo umas vezes fruto do acaso, outras trilhadas por nós. Ás vezes surpreendemo-nos quando temos de enfrentar um novo desafio que ninguem prepara antecipadamente, o pós-guerra na condição de Veterano, a reforma e a velhice.
É necessário uma mentalidade muito forte e activa que como é óbvio não se obtém ao acaso nem aparece em manuais que se possam comprar. A vida terá outro sentido se formos construindo algo ao longo da nossa existência que tenha um suporte sólido baseado na honradez, na lealdade, na amizade, no respeito pelo semelhante e pela diferença na opinião. São princípios básicos que aliados ás oportunidades que a vida nos proporciona contribuem para que chegados à bonita idade de 60 anos, como é o meu caso, olhemos para trás e consígamos ver orgulhosamente que com humildade se foi trilhando um caminho arrastando consigo todos os valores que são essenciais à existência de todos os seres humanos.
Longe estava eu de pensar quando à 10 anos dicidi escrever as minhas memórias da guerra de Angola, que vivi de Dezembro de 1969 e Janeiro de 1972, a pedido da Susana a minha filha na altura com 19 anos, que mais tarde me iria ser muito útil, nomeadamente o meu contributo nas Histórias de Guerra promovido pelo Correio da Manhã e editado no dia 6 de Junho de 2008, e agora nesta altura eu iria voltar a reviver tudo novamente com a intensidade que julgava já não ser possível.Ao contrário de muitos que dizem querer esquecer a Guerra e aquilo que passaram, eu digo que não, não quero esquecer, faz parte de mim, do meu passado, faz parte da hitória, faz parte da minha consciencialização humana face à opressão e barbaridades cometidas contra indefesos. E depois esquecer representaria abandonar e esquecer verdadeiros amigos e camaradas que comigo sofreram a brutalidade de uma guerra que nos marcou e sobmeteu à violência, ao desprezo pela vida, à fome, à sede, ao frio, ao calor, a tudo o que de negativo uma guerra nos oferece.
O que aconteceu em Almeirim no dia 21 de Setembro de 2008 com o reencontro com os meus camaradas Pára-Quedistas que estiveram comigo no Bat. Caç. Pára-Quedistas 21 em Angola não foi um simples almoço de confraternização entre todos nós, foi o reencontro de camaradas que carregam nos ombros parte das suas vidas vividas dramaticamente em palcos de guerra e que quiseram por necessidade partilhar todos esses episódios que estão bem vincados na sua memória.
A profunda amizade e solidariedade e o respeito entre todos estavam lá, desde a patente mais alta até chegar ao soldado. Esta amizade e respeito foi-se acentuando ao longo da vida militar desde o 1º ao último dia de serviço chegando aos dias de hoje com enorme saudade de todos aqueles com quem partilhámos os momentos mais importantes e críticos da nossa vivência durante a nossa permanência na Guerra.
Da maior parte deles já não me lembrava das suas feições, o afastamento foi de 36 anos (uma vida) mas a pouco e pouco e com a ajuda de todos foi como se tivessemos regressado ao passado e onde a memória nos permitiu chegar.
Fiquei feliz por juntar à minha volta (tal como aconteceu em Angola) um grupo de camaradas muito fiel que por serem muito especiais mereceram toda a minha atenção e disponobilidade.
Ficou confirmado mais uma vez a dedicação e apego que os veteranos de Guerra Pára-Quedistas têm pela sua ARMA, o envolvimento partilhado pelos seus familiares (eu tive a sorte de ter a companhia dos meus filhos, Hugo e a Susana bem como o Daniel o seu namorado, que viram ao vivo alguns protagonistas de histórias que lhes contei sem fim.
A vida também nos recompensa por todos os bons e maus momentos que passámos, fruto de uma postura adequada que soubemos sempre usar perante as diversas situações que enfrentámos.
Hoje esse reconhecimento esteve presente e deu para verificar que apesar da marcha do tempo a memória de todos continua bem vincada, tal como a sigla que nos une "Que Nunca Por Vencidos Se Conheçam".
Uma promessa ficou, para o Ano (3ª Semana de Setembro) lá nos encontraremos novamente.

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