quarta-feira, 4 de julho de 2018

Ultra Trail Serra da Freita, 30 de Junho de 2018

Mirando a "Besta"
Ultra Trail Serra da Freita, 65 kms a 30 de Junho 2018 com partida ás 06,15h juntamente com a Ultra Trail de Elite na distância de 100 kms. Pela 7ª vez eu estava presente na partida, 4 na versão 70 kms e 3 na versão de 65 kms,  apenas ter concluído duas (uma de cada versão) continuo com a mesma paixão por aquela Serra apesar de algumas vezes ela ser madrasta para comigo. Em 2012 uma queda e um braço rasgado a precisar de costura, em 2018 uma queda na espectacular subida da "Besta" traçam uma epopeia de alguém que luta contra as adversidades próprias de uma prova de sonho cujo palco na Serra da Freita nos transporta por vales e montanhas
muito agrestes, com rios, escarpas, subidas e descidas alucinantes explorando
de nós um pouco de tudo até à exaustão! Raramente há 2ª oportunidade para quem, por descuido, por desatenção ou distracção ali cair, as consequências são sempre, quando acontecem com alguma gravidade. Nesta edição o tempo chuvoso, o nevoeiro intenso em algumas zonas, o aumento dos caudais dos rios e ribeiros veio aumentar o risco de queda para todos, e muitas foram as que ocorreram, felizmente sem gravidade aparente. 
Creio que de todas as quedas existentes a minha foi a mais espectacular, que
Ao fim de 9 kms o alto nas antenas
acabaria por levar à minha desistência, ocorrida na parte mais íngreme a meio da escalada da "Besta". Era a 6º vez que ali passava e nunca encontrara um tempo tão adverso para fazer a escalada, frio, chuva com granizo, muito musgo e rochas encharcadas em água, reuniam as condições ideais para em qualquer momento acontecer o acidente.
Estava tudo perfeito, os vassouras aos 21 kms ainda me acompanhavam mas a partir daquele momento desviaram no sentido da prova de Ultra Endurance e de Elite de 100 kms com o objectivo de fazer a limpeza do percurso, eu segui, rumo ao encontro do trilho de onde

A escalada da Besta corria bem, até mesmo ao local da queda, chovia e o granizo de repente aparece com muita violência, ali não há protecção alguma a não ser pequenas árvores ou arbustos, creio, sem ter a certeza, que perdi a concentração ao tentar andar um pouco mais rápido no meio daqueles pedregulhos para me proteger do granizo numas árvores que estava mais acima, de repente a mão esquerda, (levava os bastões na direita) falha uma pedra, o musgo solta-se e o desequilibro acontece, dou um passo atrás, como que descendo um degrau, dou meia pirueta e caio de lado sobre a direita, com a velocidade da queda não
consigo manter a cabeça elevada, uma rocha mais saliente fez o resto! Fiquei prostrado algum tempo para perceber o que tinha acontecido, tinha sentido uma espécie de bomba a rebentar dentro da minha cabeça, sentei-me, tonto e com dores, não havia sangre mas sabia que algo acontecera, rapidamente o inchaço aparece, a cara e o osso acima da orelha começam a dar sinais preocupantes, como ia sozinho e era o último dos 65 kms, (a prova dos 100 kms ainda ia demorar até chegarem os primeiros), sem rede de telemóveis, não arrisquei utilizar o 112, não me restou outra alternativa de tentar sair dali ainda que estivesse a mais de 300 metros
do alto da Serra. Levantei-me um pouco a cambalear e fui subindo pedra sobre pedra, ao fim de mais uma hora e meia estava a chegar ao planalto, devagar, muito devagar fui percorrendo o circuito marcado pelas fitas, o nevoeiro parecia novelos a atravessar aquele planalto junto ás Eólicas, eu estava quase em hipotermia, se é assim que se diz, pois o frio era muito, o vento era forte, a chuva continuava e o nevoeiro assustava. Parei finalmente atrás de um rochedo, vesti o Corta Vento e passado pouco tempo melhorei a minha temperatura corporal. O meu problema era agora ter de seguir as fitas, não as podia perder se queria chegar ao próximo

abastecimento, em certas alturas olhava o que tinha pela frente e perguntava-


me: e agora o que faço? Resignado subia e descia por entre rochas e mato,
queria era chegar, de repente surge atrás de mim no início da descida os 2 primeiros da prova dos 100km Endurance, vinham em disputa da liderança, nem me atrevi a importuná-los, se um parasse o outro fugia e assim optei por seguir o meu caminho, lento, por vezes cambaleando mas com a segurança possível, mais abaixo passado algum tempo surge o 3º atleta a passar por mim (a mesma ordem da chegada à meta) não dou pela sua chegada e assustei-me com a sua chegada ao pé de mim, andavam por ali umas arouquesas e pensei que fosse uma delas, ia caindo, pediu-me desculpa e seguiu sem saber que eu ia com dificuldades, não me atrevi a travá-lo, ia em busca de um bom resultado. A descida era ainda muito longa, o Vitor Cordeiro surge na 4ª posição, (estava eu a 4 kms de Bondança) aí pedi-lhe para parar, o que fez de imediato, pedi desculpa e informei-o do ocorrido na subida da "Besta" e enviei através dele uma mensagem para virem ao meu encontro e ajudarem-me, creio
que o fez e bem sendo de imediato alertado o sistema de operações e salvamento organizado para esta prova. Entretanto prossigo Serra abaixo até que chego a uma estrada de alcatrão, olho à volta procurando um local mais protegido do frio e do vento para me sentar um pouco e descansar. Ali estive uns 10 minutos e decido continuar,  Bondança já devia estar perto, a boca secava rapidamente sem ter sede , não sabia se era desidratação, se era da pancada na cabeça, por precaução optei por apenas molhar os lábios de vez em quando, chego à entrada da Aldeia e caminho lentamente, alegro-me por ver a chegar ali mais atletas da prova dos
100 kms, alguns eram conhecidos, na curva seguinte deparo-me com as viaturas dos grupos de operações e salvamento, sento-me junto a eles, não sabem quem sou, identifico-me e tudo mudou, pensavam que eu ainda estava na "Besta" e estavam a organizar-se para me procurar, quem os informara provavelmente não localizou bem onde me encontrava. Fui rapidamente assistido com muita simpatia, os bombeiros foram solicitados e conduzido rapidamente para o Centro de Saúde de Arouca (aqui não existe Hospital), registo mais uma vez a prontidão e simpatia dos bombeiros de Arouca e dos funcionários do Centro de Saúde, dado este C.S. ter poucas valências fui levado para o Hospital S. Sebastião em Santa Maria da Feira
onde me efectuaram 2 TACs à cabeça que detectaram uma fratura na "Escama Temporal Direita", um osso logo acima da orelha, e internamento de 12 horas sob vigilância médica, tendo alta no Domingo quando já se encerrava em Arouca mais uma edição do Ultra Trail da Serra da Freita.

Não se pense que a Freita acabou para mim, pese embora um triste desabafo de alguém ligado à organização em relação ao meu historial nesta prova, tinha deixado os vassouras aos 21 kms e eles deram-me tal força que ia embebido da esperança em chegar a Arouca (tal com fizera em 2015), confessara-lhes que provavelmente seria a minha despedida considerando que apenas faltavam 3 dias para atingir os 70 anos e era altura
de fechar aquela porta. Esta queda num dos sítios mais espectaculares da prova veio deixar um vazio que tem de ser preenchido. Na próxima procurarei não incomodar o Sr, nem ninguém da organização, todos sabem como os tenho no coração, e não me atrevo a criticar todo o trabalho que fizeram e não é este pequeno incidente que irá manchar a organização de uma das provas mais lindas que existe no nosso país.
Para tal basta atestar os comentários e apreciações que muitos atletas já têm feito, pese embora a dura luta que tiveram de travar para vencer esta Serra.
Um até breve grande Freita!

6 comentários:

Paulo Couto disse...

Camarada Adelino espero que já esteja melhor.
É mesmo um guerreiro.
Abraço

JoaoLima disse...

Um abraço com o desejo de boa recuperação

Alexandre Duarte disse...

Podem chamar-lhe loucura, mas entendo tão bem esse chamamento. Recupera como deve ser. Abraço

Fátima Pereira Gonçalves disse...

Meu amigo, fiquei surpreendida com esse teu incidente. Lamento muito!
Mas, fiquei a admirar-te ainda mais pelo descernimento, pela coragem e valentia que tiveste.
Força Joaquim e boas melhoras!

Anónimo disse...

Companheiro

rápida recuperação e para ano há mais, se der para partir já é bom sinal.
Abraço.
António

Filomena Adelino disse...

Vais lá voltar, és um lutador vencedor mano!

José Adelino