quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Ultra Trail dos Abutres, 31/01/2015

Parte da minha "Equipa" que devia partir comigo para Miranda do Corvo não chega a sair de casa, quase 3 meses antes planeáramos a deslocação, éramos 3, e à ultima da hora as lesões afastaram-nos da prova dos Abutres, parti só e repeti a odisseia sozinho tal como fizera em 2011 com a realização da 1ª edição, então com 32 kms apenas de extensão. Falar da 5ª edição desta prova realizada no passado dia 31 de Janeiro e compará-la à 1ª edição de então é como ir à fonte com um cântaro de 5L e voltar lá agora e carregar com um de 30L. Então fizera 5,40h para perfazer aqueles 32 kms, agora necessitei de 7,05h para chegar aos 30 kms deixando por fazer (por chegar fora do controlo) mais 20kms. Claro que mudou muita coisa, o nº de kms, o nível de Organização, o nº de atletas, o grau de dificuldade e também os 5 anos a mais que já pesam em cima desta carcaça, já muito usada, para não dizer outra coisa. E este ciclo vai continuar, comigo ou sem mim, a paixão da aventura e do risco continua a "atormentar-me", não resisto ao acompanhar fisicamente da evolução desenfreada do que é actualmente as provas de trilhos em montanha, o que era inicialmente conhecido por caminhos e trilhos simpaticamente idealizados para todos desfrutarem da Natureza transformou-se nos tempos actuais numa agressividade sem precedentes, com contornos por vezes sádicos e sem avaliação de riscos ou pelo menos descurando-os de forma grosseira roçando a irresponsabilidade.
Esta 5ª edição da Ultra dos Abutres tinha, e teve tudo para ficar gravada na história recente do Trail em Portugal, a própria organização da prova evoluiu espectacularmente ao longo de todas as edições ao ponto de se esmerarem para perto da perfeição nesta última edição. A perfeição de que falo nada tem a ver com o que se passou em prova, essa nada nem ninguém conseguiria assegurar devido ás péssimas condições climatéricas no terreno, mas na perfeição como responderam aos imponderáveis surgidos na noite/véspera da prova e a resposta dada para assegurar a sua realização e permitir ás centenas de atletas que ali estavam ansiosamente a aguardar pela ordem de partida. Creio que foi um risco enorme e corajoso permitir o início desta prova, como creio que terá sido um alívio enorme para a organização quando o último atleta encerrou com o último passo mais esta edição da prova. Foi notório no breifing final antes do início da prova o nervosismo do Spyker ao dar os últimos conselhos sobre os cuidados a ter na Serra, profundo conhecedor daquela Serra sabia que ali na sua frente estava gente ansiosa e também uma
boa parte deles inconsciente para o que ia encontrar, os riscos eram enormes mas mesmo assim tiveram a coragem de não defraudar a vontade daquela gente. Ainda assim deixo um reparo, porque é que não foi eliminado, tal como o fora a Ribeira de Espinho, aquela descida infernal dos 25 para os 30 kms? Num dia normal sem temporal aquilo é de facto espectacular mas naquelas condições torna-se um perigo iminente a cada passo que se dá, eu e um amigo que ali seguia comigo perdemos o conto ás quedas que demos, nem imagino o que se terá passado com os outros, fora dos trilhos nada sei da Serra mas creio que era possível ali qualquer trilho ou estradão alternativo até chegar ao posto de controlo dos 30 kms e assim evitar a eliminação de tanta gente.
A perfeição está também, pensada ou não e mantida em segredo, até na forma como decidiram o atraso em duas horas da prova e a inflexibilidade de conceder mais tempo no 1º posto de controlo a quem lá chegasse para além das 5,30h, pessoalmente nem sequer me senti frustrado porque não fui capaz de lá chegar antes das 7,05h de prova mas respeito a frustração daqueles que
por segundos ou poucos minutos se viram barrados, quero crer por isso que esta experiência vivida este ano também será benéfica para a própria organização que por certo retirou muitos ensinamentos para as edições futuras, a redistribuição mais ajustada dos tempos de passagem tendo em conta o grau de dificuldade a percorrer e nº de kms e ao mesmo tempo percursos alternativos para rapidamente responder aos imponderáveis agora sucedidos.
Pessoalmente, apesar de todos este imponderáveis gostei da prova, há 2 anos aconteceu uma situação quase semelhante de mau tempo mas tive a pouca sorte de aos 2.5kms ter sofrido uma micro rotura num dos gémeos e a desistência, gosto de correr à chuva e a lama não me assusta, mas desta vez aquilo também foi de mais, fiquei descalço logo no início quando começou o lamaçal, os que vinham atrás ainda ajudaram a esconder mais os ténis, enterrado até ao joelho fui descalço até encontrar onde pudesse lavar-me e recomeçar a corrida, logo de seguida falho um salto e caio num pequeno ribeiro sem consequências. 
O 1º abastecimento este ano estava perto dos 15 kms, nesta ascensão à 1ª grande subida aos 900 metros contei com as companhias de amigos, da Isadora e companheiro, da Célia Azenha, José Carlos Melo, João Meixedo e foram muito preciosos, a muita água que escorria pelos trilhos, a lama e as rochas molhadas e escorregadias eram um perigo assustador. Mais acima, depois de saltar riachos e poças de água e lama chegámos ao abastecimento dos 24 kms e encontrei os primeiro desistentes, ali o frio era imenso a juntar ao granizo que volta e meia estava a cair, os flocos de neve também caíam lentamente originando sem surpresas o início de uma fase em que as mãos deixaram de ser sentidas e as dores se tornavam insuportáveis, atestei o camalbeck e comi pouco e abalei com o Meixedo e mais 2 amigos, continuámos a subir e o frio e a insensibilidade dos dedos a aumentar, as dores acompanhavam mas nada podia fazer pois o corpo não gerava calor para ajudar a ultrapassar isto, correr não dava e tinha a esperança que quando chegasse ao ponto mais alto se pudesse começar a correr. Iniciamos a descida aos 25 kms com 5,30h de
prova mas correr era quase impossível, tínhamos já a certeza que não passaríamos o controlo das 5,30h aos 30 kms, descer aqueles 5 kms foi um teste à resistência, equilíbrio, força, reacção positiva ás quedas, ao sacrifício e sangue frio, felizmente tive sempre companhia na descida o que permitiu acumular mais confiança e entreajuda nos obstáculos a enfrentar, apesar de ser a descer aquilo foi uma eternidade, 1,35h para percorrer pouco mais de 4,5kms com o "castigo" de na parte final descer a um poço com perto de 200 metros tendo como ajuda uma corda, que dispensei. Mais 300 metros e a meta de controlo dos 30 kms, já lá não estava, uns pinos mantinham-se lá alinhados para dizer que era ali que devia ter chegado antes das 5.30h se queria prosseguir em prova! Como se eu fosse um intruso pedem-me sem cerimónias que retire o chip, coisa que tenho dificuldade em fazer devido à dormência que ainda mantinha nas mãos. Um pouco mais de simpatia também se impunha ali na chegada dos atletas e é de carinho que todos precisavam após provação tão elevada, mas pronto!!!
Terminava ali sem frustração a minha participação nesta 5ª edição dos Abutres, a primeira prova em que fui barrado por excesso de tempo, não sei se voltarei, o tempo máximo de limite no final está acessível mas os tempos intermédios esmagam-me qualquer tentativa, aguardemos.
Para a Organização e todos os que estiveram envolvidos, bombeiros e voluntários civis vai o meu apreço e um abraço.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Cross do Laminha, Cumeira, Juncal 2015

Quase que poderia copiar a história da minha corrida no Cross Laminha de 2014 para 2015, a distância deste ano foi superior em 630 metros (14,640 kms) mas a marca foi inferior em 12 segundos (2,13,37 h em 2015), a média por km também baixou, 9,08 minutos por km. Se fosse mais atrás no historial provavelmente não fugirá muito destes n´meros, pelo menos nos últimos anos, o que é absolutamente natural.
Foi a primeira prova do ano após ter concluído com sucesso toda a época de 2014 onde superei por larga margem pela primeira vez os 1000 kms percorridos no total das provas num só ano. Segue-se já no final do mês o sempre difícil Trilho dos Abutres a percorrer na Serra da Lousã  ali nas encostas de Miranda do Corvo. Será mais um ano que promete que terá como pontos altos As Ultras longas de Sicó e S. Mamede, ambas acima dos 100 kms.
O Laminha serviu para isso mesmo, ensaiar ritmos com vista a enfrentar com moderação as longas horas que levarão a percorrer os desafios mais duros que terei pela frente, ainda assim a prova deste ano favoreceu-nos por estar bom tempo e o percurso não apresentar dificuldades de maior, aliás senti que o percurso deste ano estava muito melhor desenhado, se é que se pode considerar diferente já que aquele serpentear permanente em nada se alterou mantendo a espectacularidade de todo o percurso tal como o conhecemos de há uns anos a esta parte.
Como sempre acontece continua a ser uma prova muito divertida, diversão essa que nos acompanha do 1º ao último km, senti a falta da água e da lama pela 1ª vez, creio que o Laminha sem aquelas características não é a mesma coisa e penso que todos os que o conhecem sentiram isso, o gostar ou não já é outra coisa.
Parabéns a todos os que tiveram a oportunidade de lá estar, percebe-se bem porque é que o limite de inscrições é tão limitado, o espaço para correr é pouco e os trilhos muito cedo começarem a entupir deixando desta forma de ser uma corrida de cross e passar a ser uma caminhada. Apesar de tudo mais uma vez o Vitor Ferreira conseguiu oferecer-nos uma bonita prova, muito bem organizada e divertida para além do convívio final onde o almoço mais uma vez esteve impecável.
Endereço daqui mais uma vez as melhoras ao Rui Pacheco e ao Vitor Pinto meus companheiros inseparáveis nas provas de Trail as melhoras pelas mazelas sofridas na prova e que póssamos dentro das possibilidades de cada um encontrarmo-nos de novo nos Trilhos dos Abutres já no próximo dia 31 de Janeiro para mais uma tirada de 50 kms.

Leitura de Garmin

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Trail de Alenquer, 28 de Dezembro de 2014

A minha chegada
O Trail de Alenquer realizado no passado dia 28 de Dezembro e em que participei veio pôr cobro a um interregno de competições de quase 1 mês forçado devido à sobrecarga de kms realizada nos últimos 100 dias do ano. Os trails de Barcelos e de Barrancos (120 kms no total) no espaço de uma semana causaram efeito negativo tendo por isso de gerir a capacidade física tendo como único objectivo participar no Trail de Alenquer onde já estava inscrito e por ser um local bem perto da minha terra, Aveiras de Cima e organizado por amigos companheiros do trail.
Por estes factos não participei em nenhuma S. Silvestre de fim de ano
A chagada da Susana
(exceptuando "a pirata" realizada em Monsanto na noite de 26/12), creio que em 27 anos é a primeira vez que falto a esta corrida, contudo estive presente nos Olivais a assistir e a apoiar os amigos na noite de 30 de Dezembro. 
O trail de Alenquer veio colocar um fim a uma época que já vai muito longa, ela começou em Janeiro com o Laminha e terminou agora em Alenquer, a escassos 14 dias de voltar ao Laminha onde se vai iniciar nova época de trail. Isto é, não há descanso para quem adora correr na montanha e nos trilhos, noutras valências da corrida ainda é possível intercalar algum descanso na época do Verão, aqui já não é assim, a força do trail está
A chegada do Vitor Pinto
espalhada por todo o ano cuja distribuição de provas é muito equilibrada permitindo assim a cada um escolher entre as provas mais "pequenas" e as de maior quilometragem que lhe interessa. Nesta fase de início de ano vai ser necessário algum discernimento na escolha das provas a realizar, pela minha parte parece-me que esse discernimento já começou a falhar, querer realizar duas provas acima dos 100 kms no 1º 
semestre parece-me exagero mas o meu sentido não me deixa fugir dali e a única forma encontrada foi fazer a inscrição e esperar que depois a força de vontade aliado a um razoável estado físico ajudem a finalizar os principais objectos para o novo ano que agora começou.
O prémio sorteado, uma mochila Salomon
Como era de esperar o trail de Alenquer correu-me bem, o treino "pirata" de Monsanto 2 dias antes deu alguma embalagem mas estava dorido, principalmente os joelhos, para ajudar à festa a prova praticamente começou a subir um conjunto de escadarias que parecia nunca mais ter um fim, aí o joelho direito cedeu e tive de subir sempre a andar, depois foi aproveitar as partes mais acessíveis para correr deixando as subidas para caminhar e recuperar algumas forças. Os trilhos estavam em muito bom estado, a lama ou barro era muito consistente, em alguns casos parecia cola, ajudando a aderência nos sítios de maior dificuldades quer nas subidas quer nas descidas, claro que se chovesse a sério
Rui Pacheco, vencedor da prova
aquilo iria complicar-nos a vida, os chuviscos que caíram apenas serviram para nos refrescar já que o frio que estava, no meu caso, era insuficiente. 
Ali não foi preciso inventar nada, os trilhos existentes eram suficientes para fazer uma prova com o dobro dos kms, trilhos com passagem por locais muito bonitos em plenas serras com cobertura de matagal tal como eu gosto, as marcações estavam a preceito tal como mandam as regras, sempre visíveis, vê-se que quem idealizou e marcou a prova é profundo conhecedor das técnicas a desenvolver para organizar uma prova deste tipo e dar aos atletas a confiança necessária para desenvolver o seu esforço. E foi o que fiz, exceptuando os
Excelente serviço de apoio, aos 20 kms
"engarrafamentos" iniciais (que até serviram para recuperar algumas forças) a prova foi sempre corrível conforme as capacidades de cada um, para os meus companheiros de viagem e de clube a satisfação era geral, o Rui Pacheco ganha a prova, a Susana Adelino, minha filhota, participando na prova de 12 kms foi 6ª da geral feminina veio de lá contente com a sua prova e com um prémio valioso e que será um estímulo para o seu futuro no trail, o Vitor Pinto considerando as suas dificuldades de 
treinar fez também uma excelente prova dentro das suas expectativas  iniciais.  A minha prova só começou a entrar nos eixos a partir aí dos 6 kms,
Descida acentuada
a escadaria os engarrafamentos e o sobe e desce constante do início contribuiu para que só a partir dali começasse a soltar mais, é o habitual e não se pode dizer que nas outras provas é diferente, para quem treina com médias a rondar os 6,5 minutos por km não pode aspirar a ir para as provas e correr depois a 6 a menos minutos por km. Assim aos 6 km já tinha 
gasto 60 minutos, tendo aos 12 kms gasto 57 minutos provavelmente devido a uma melhoria do terreno que percorremos, aos 18 kms marcava 50 minutos, aqui aproveita-se a descida que ligava a parte mais alta do percurso até ao plano mais baixo, daí a melhoria do tempo das parcelas de 6 kms, para os restantes kms 4,300 kms foram gastos mais cerca de 40 minutos, perfazendo 3,30h para os 22, 300 a uma média razoável de 9,26m por km.
Resta-me agradecer à organização as excelentes condições que nos ofereceram para participar na prova, e pelo excelente convívio final que ofereceram a todos, creio que a demora na distribuição dos prémios se deveu
A sopa no final da prova, excelente
aos lamentáveis actos de banditismo que ali ocorreram durante a noite dificultando assim o trabalho final da organização tão arduamente preparado ao longo de bastante tempo, recebam pois por isso a minha solidariedade.
O Laminha e os Abutres estão aí na calha para este mês, num novo ano em que sonho ainda voltar a bater o recorde de kms deste ano em competição, (1075 kms), destes, 120 foram percorridos em estrada.

sábado, 27 de dezembro de 2014

5ª S. Silvestre Pirata noturna na mata de Monsanto em Lisboa em 26/12/2014

Graças ao empenho e dedicação dos amigos, Paulo Pires, Boleto, Orlando Duarte, Manuela, Parro e tantos outros que estiveram na 1ª linha foi possível organizar de novo mais uma edição de S. Silvestre Pirata nas matas de Monsanto cujo objectivo é reunir os amigos e em conjunto festejar o final de mais um ano nas nossas vidas. A corrida é sempre o pretexto para a reunião, foi a 5ª edição e a todas elas eu estive presente, a organização pirata aproxima-se da perfeição em
organização de uma outra prova qualquer das mais consagradas, inscrições via Internet gratuitas (no local apela-se a uma dádiva de 1€ para pagamento do caldo verde e um contributo para a ajuda das despesas da Colectividade que nos acolhe. Depois é a reunião da foto antes da partida para a galeria das S.Silvestres da nossa história, desta vez ouve a separação dos piratas dos 17kms e dos 10 kms, creio que foi uma evolução positiva, os inscritos eram
mais de 400 e a confusão foi evitada separando desta forma os afoitos  desta paródia. 

Monsanto à noite mais uma vez ficou pejada de pirilampos, os 17 e os 10 kms permitiram esticar os kms de floresta engalanada com as luzes dos frontais dando uma beleza rara a este pulmão da Cidade muito carenciado de quem o abrace, felizmente que este punhado de amigos mantêm a nobre vocação de ali nos reunir abrindo também desta
forma a possibilidade de cada um contribuir com um gesto de solidariedade para com aqueles que mais necessidades têm e que possam nesta quadra festiva serem lembrados e apoiados.
Sem pressas de andar no tempo que vem, conto continuar a ir sempre que a piratagem decida reunir, o êxito de mais esta iniciativa deixa boas indicações para os anos seguintes e os amigos que vieram pela 1ª vez são o garante que esta porta continuará
aberta para que todos possam via a engrossar estes movimentos espontâneos que nasceram de uma vontade colectiva muito abrangente.
Obrigado aos piratas/mor pela diversão e pelo que nos ofereceram sem exigir nada em troca.

O NOSSO VASSOURA, LUÍS PARRO, FOI IMPECÁVEL NA BUSCA DOS SINAIS LUMINOSOS, (COM A "HUMIDADE" MUITOS CAÍRAM ), E ASSIM CONSEGUIMOS DAR COM O CAMINHO DE REGRESSO, ATÉ AQUI A PIRATAGEM ESTÁ A EVOLUIR.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Ultra Trail de Barrancos 29/11/2014


Barrancos era de facto um mistério para mim, conhecia a luta pela morte dos touros, figuras públicas como o Paulo Guerra, o José Maria e mais recentemente o nosso ilustre amigo Francisco Bossa, Este Ultra Trail ali realizado era uma oportunidade que não podia perder de por lá poder passar, sim porque para se ir a Barrancos tem de se ter um motivo, pelo menos, forte. Vinha de uma prova muito dura dos Amigos da Montanha na semana anterior onde pus à prova as minhas reais capacidades físicas de momento durante aqueles 63 kms e quase 12 horas de duração, superada esta sem mazelas de maior entrou no cone de imediato Barrancos, em 2013 falhara esta prova exactamente por causa daquela mas desta vez tudo teria de mudar, devidamente acompanhado pelo meu genro Vitor Pinto, que me acompanhou também a Barcelos cedo decidimos avançar para Barrancos, à condição gentilmente cedida pelo Ico, inscrevemo-nos na semana anterior. Para mim
seria um desafio enorme porque nunca tinha feito duas corridas de 60 kms cada no espaço de uma semana, mas estava determinado, queria conhecer Barrancos e estar junto dos amigos, em especial do Ico Bossa por quem tenho muita estima e admiração.
Durante a viagem até Barrancos, por estradas nacionais por ser mais em conta e por se ficar com um melhor conhecimento dos sítios nunca antes visitados, fomos observando ainda a partir de determinada altura o grande deserto em que está transformado uma boa parte alentejana, agricultura é quase nula, não sei se é da época, o que vi foi muito sobreiro, azinheiras, oliveiras, videiras e alguns animais pastando, estradas mais ou menos bem arranjadas e uma paisagem, apesar de desolação, muito bonita, creio que isto é a realidade alentejana e um pouco da realidade do nosso país, lamentavelmente!
Mas Barrancos é outra coisa, surpreende quem por lá passa, a vida e o dia a dia das pessoas não se vê, tem de se por lá demorar para começar a entender aquilo, pessoas afáveis e carregados de simpatia, mal entrámos em Barrancos e logo nos deram como referência para encontrar o nosso destino a famosa praça dos touros de morte, como aquilo não é pequeno foi o cabo dos trabalhos, rua acima rua abaixo e tivemos de voltar à Rotunda inicial sem conhecer
a famosa praça. à noite a vida transforma-se como que por magia, o sossego dos mais idosos a contrastar com a irreverência e o espírito divertido da juventude, assim chamada. Para felicidade nossa a juventude de Barrancos, e eram tantos, juntou-se na noite de Sábado no mesmo local onde jantámos para comemorar a ida ás sortes de 2 dos seus, é uma tradição e uma das coisas mais bonitas a que assisti, cantou-se e bebeu-se, nós apesar de muito cansados da dura luta que travámos durante o dia para vencer aquele obstáculo de 56 kms, entrámos na festa e fomos brindados com cânticos alusivos ao evento, que rapaziada simpática que se exprimiram assim dando corpo e sentido a uma tradição bem enraizada pelas gentes mais antigas. Dali regressámos a casa, de peito feito e extasiados pela juventude de Barrancos, uma Vila assim só se pode orgulhar por ter uma chama acesa a fluir para o futuro com uma juventude desta qualidade, bem hajam.
Quase que passava por cima  daquilo que me trouxera a Barrancos, o Trail e Ultra Trail de Barrancos, provas que prometiam as maiores dificuldades para os atletas, era o mau tempo dos dias anteriores e os sucessivos avisos (meio a sério meio a brincar do Ico), confesso que foi coisa que não me preocupou muito, aliás sempre tenho dito que gosto de correr à chuva mesmo que isso implique haver muita água e lama no caminho. Pior foi mesmo levantar-me ás 6h da
manhã para partir ás 9h de Espanha em Encinazola e voltar a Barrancos ao fim de 20 kms para abastecer quando a escassos 500 metros, ou menos, está a fronteira que divide os 2 países. Em resultado disto e devido ao elevado caudal dos rios o tempo de controlo foi reduzido em uma hora, de 7 para 6 horas (eliminação), entrei em parafuso, tinha passado uma forte provação em Barcelos na semana anterior para passar o Rio Cávado aos 52kms e agora estava com o mesmo dilema, com a agravante de ainda sentir os efeitos de então. Mais tarde tivemos a prova da justeza da medida quando chegámos à hora da verdade junto ao rio nas suas margens. Creio que seria acertado e a exemplo do ano anterior, (salvaguardando os compromissos fronteiriços com a comunidade espanhola), começar e terminar a prova em Barrancos permitindo assim começar a corrida uma ou duas horas antes
criando-se assim condições para que todos, ou quase, terminassem a Trail ainda de dia aliviando um pouco a pressão sobre a eliminação como aconteceu com alguns atletas nesta edição.
Em Encinasola, terra fronteiriça com Barrancos, poucos deram pela nossa presença, para isso muito contribuiu o local escolhido para a partida, é uma terra pequena é certo mas a população local ignorou a nossa presença, apenas fomos recebidos por duas ou três mulheres que estavam no mercado a dar café, ou vender? a quem chegava, talvez por ter pouca freguesia depressa foram embora dali.
Estava ali com vários amigos do meu Clube (Amigos do Vale do Silêncio) uns para a Ultra e outros para o Trail com partidas separadas de 15 minutos. 
Face ao "corte" de uma hora só tinha uma solução, partir e aproveitar aqueles kms iniciais que desciam por estradões carregados de pedras e pedrinhas, muita lama e rochas escorregadias, era correr e procurar andar o mais rápido possível onde não me era permitido mais do que isso, não queria morrer na praia dos 34 kms e por isso tinha de fazer pela vida, as brutais paredes que tivemos de escalar (não sei se no país vizinho ou no nosso) começaram a preocupar-me, se houvesse mais daquilo a coisa podia complicar-se. É no final da 2ª parede aos 10 kms que sou "apanhado" pelo meu genro Vitor Pinto que partira 15m depois, a partir dali até Barrancos o percurso tornou-se bastante acessível com muita subida e descida acompanhado quase sempre de muita lama e pequenos cursos de água rodeados de mato e bastante arvoredo. Aos 18 kms separam-se os atletas
das duas provas, aos 20 estava no centro (bem no alto) de Barrancos a abastecer para voltar de novo ao campo e percorrer os 40 kms que ainda faltavam, psicologicamente aquilo não é bom para muita gente, talvez na aba da Vila fosse mais indicado mas provavelmente foi ali que o Ico começou a mostrar a sua tendência de complicar a nossa vida face à ausência de alta montanha no Alentejo (salvo raras excepções). Perto dos 25 kms 2 Amigos do nosso grupo chegam-se a mim, o Fernando Silva e o Juca Jacob, assim mesmo, e juntos partimos decididos à procura do posto de controlo dos 34 kms, era suposto estar aos 33, e aí começámos a recear o pior, tínhamos 5,15h e receámos que este controlo estivesse mais longe do que pensávamos, mas não, para enorme satisfação ali estava ele exactamente aos 34 kms e 5,30h, valera bem a pena pelo esforço despendido para ali chegar, voltava a sentir a ansiedade a abalar por superar mais esta barreira,
agora era comer e beber e descansar um pouco, combinámos 10 minutos de paragem e um pacto de não agressão durante a próxima hora, era andar enquanto fazíamos a digestão, contudo pré-estabelecemos um ritmo próximo dos 5,5kms por hora mesmo a andar. Foi assim que chagámos ao Castelo de Noudar, uma pérola local mas que nos passou ao lado, isto é, nós é que passámos ao lado dele e não sei porque razão não tivemos a oportunidade de o percorrer no seu interior, depois lá bem no alto uma vista surpreendente e espectacular sobre o rio que serpenteava no vale cujo leito bem forte de água banhava as margens ali mesmo junto aos nossos pés, é ali no meio de obstáculos muito difíceis de ultrapassar que encontrámos o Ico, percebe-se agora as suas preocupações com a noite e a perigosidade daquele local, por isso ele estava ali, podia vê-lo e não valorizar a sua presença, mas a sua dedicação e preocupação não o deixou estar noutro local senão ali ao pé de
nós, podia até estar na meta e esperar os atletas de forma cómoda mas merecedora pelo seu empenho e trabalho ao longo de tanto tempo, mas não, num dos locais mais agressivos lá estava, dei-lhe um abraço e segui com o meu grupo com ele a acompanhar-nos durante algum tempo, depois deixou-se ficar para trás aos poucos. Pouco depois as luzes dos frontais substituem a luz do dia, as forças para correr já faltam, aproveitamos a parte plana e as descidas para nos aproximarmos o mais possível da meta, já prefiro só as subidas mas tenho de correr atrás dos meus colegas para não ficar sozinho, é assim que chegámos ao abastecimento dos 51 kms, viro mais duas sopas, abasteço água e abalamos, aproxima-se agora mais uma enorme subida, é agora que transparece as dificuldades que já sentimos, Barrancos à vista dá-nos outro alento, alento este que se vai desvanecendo, subimos, descemos, voltamos a subir e perdemos Barrancos de vista, ainda
faltavam kms mas aquela referência fazia-nos falta (lembrei-me de Portalegre na 1ª edição e aqueles 10 kms infernais), seguimos agora pelo meio de um eucaliptal a meia encosta e de repente o corta-fogo, talvez esteja ali a razão do Ico ficar para trás, ele não se atreveria a ficar connosco até ali, iria ser um problema, quero acreditar que ele não fez aquilo por maldade, talvez houvesse por ali umas cercas a isolar as propriedades que não nos deixaram outra hipótese senão subir aquilo, não me lembro de subir coisa assim em plano inclinado, mas como era para acabar virámos mesmo à direita quando o João Campos (companheiro de quase toda a jornada)  já seguia bem lá no alto dando-nos em plena noite um plano daquilo que nos esperava. Dali até à meta e desde que a noite chegou a nossa corrida foi caminhar, mesmo assim conseguimos terminar num tempo que considero para mim excepcional dadas as dificuldades encontradas (10,28h para 56 kms) e os efeitos retardatários dos Amigos da Montanha. A festa da chegada e o ambiente
criado à volta dos atletas que iam chegando enche-nos o peito de satisfação e um bocadinho de vaidade interna, Obrigado à organização do Mundo da Corrida e todos os que estavam espalhados ao longo do percurso a apoiar-nos, e um abraço fraterno ao Ico pelo grande trabalho efectuado e pela forma sempre simpática como nos recebeu na sua terra.
Aos meus companheiros de viagem e de prova aquele abraço.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Ultra Trail Amigos da Montanha, 23/11/2014

Pelo 3º ano consecutivo fui a Barcelos participar em mais um Ultra Trail superiormente organizado pelos Amigos da Montanha sediados em Barcelos.
São notórias e espectaculares as diferenças entretanto operadas, creio que já vão na 4ª edição da prova, perdi a 1ª edição mas em todas as outras guardo ricas e extraordinárias recordações que ficam para a vida, a evolução é bem visível em termos organizativos, abandonaram já as antigas instalações demasiado exíguas para a imensidão de tarefas e actividades que têm no dia a dia a nível desportivo e cultural, as suas novas instalações respondem ás suas necessidades da sua actividade e não é sem uma ponta de vaidade que orgulhosamente mostram aos seus amigos e convidados aquelas modernas e bonitas instalações. Deram-me a oportunidade de pernoitar nas suas instalações, o bonito Albergue ali edificado de apoio aos peregrinos com capacidade para 16 pessoas é de excelência cuja inauguração é recente (Junho de 2014), servindo de apoio nesta ocasião a atletas e membros de apoio à prova, da minha parte fico-lhes eternamente agradecido pela gentileza concedida.

 Os meus receios para superar esta prova prendiam-se como único ponto de controlo situado nas margem do Rio Cávado, tal como nas edições anteriores o meu pensamento desde o ponto de partida estava ali centrado, era preciso percorrer a distância de 52 kms em 9,45h para evitar a eliminação por excesso de tempo caso não conseguisse aquele objectivo, pensaria depois nos 10 kms finais que me levariam até Barcelos onde terminaria a prova.
As condições climatéricas bastante adversas dos últimos dias não era problema para mim porque sempre gostei do tempo agreste, partimos ainda de noite e debaixo de chuva, estava bastante fresco e o percurso sempre bastante lamacento e escorregadio, contudo não é esse o meu principal adversário, o relógio sim, é terrível a pressão que exerce quando pretendemos atingir os nossos objectivos, chegar ao Cávado e ser travado por não ter os meios (barcos) para passar para o lado de lá é terrível, é como morrer na
praia quando avistamos a nossa tábua de salvação ali tão perto, tal como aqueles que ainda em prova são aconselhados a parar porque não têm a mínima hipótese de lá chegar, confesso que não sei se foi o que aconteceu, mas é bastante desanimador para quem tem a esperança de conseguir esse objectivo e fracassar porque está longe de possuir os índices físicos suficientes para o conseguir. 
Por norma gosto de correr sozinho, precisamente para não me sentir pressionado com ritmos que não são os meus, mas desta vez quebrei a regra ao pressentir que as coisas estavam muito justas, ter por perto 2 amigos que seguiam mais ou menos ao mesmo ritmo perto do 1º terço da prova e dadas as dificuldades que sentíamos juntámos os esforços e a partir dali partimos para uma corrida controlada de forma a que chegássemos ao rio dentro do tempo limite que nos era imposto pelo regulamento, neste aspecto eu tive muita sorte com a companhia do Rui Pedras e do Luís Canhão, 2 amigos muito experientes e com características próprias,
um sobe bem mas desce mal, o outro desce bem mas sobe mal, eu no meio fazia a ponte e o da frente não podia parar à espera do último, isoladamente era provável que nenhum de nós conseguisse superar aquilo. Finalmente o Rio e os kayakes, apenas 1 minuto nos separou do tempo limite de chegada, mas o suficiente para festejar esta "pequena" vitória mal descobrimos a tenda e o local de passagem.
Para trás tinham ficado obstáculos bem difíceis de ultrapassar, o terreno lamacento, estradões cobertos de água e lama, rochas escorregadias, percorrer aquele rio junto ao abastecimento dos 37 kms com um caudal de meter respeito e o caminhar ao longo das suas margens, tudo foi superado com a entreajuda fortuita e ocasional que conseguimos montar entre os 3.
Ao contrário do ano anterior desta vez tive a companhia do Pedras na travessia do rio e rapidamente alcançámos a margem oposta, o caudal do rio era forte mas o Kayak levou-nos em segurança, podíamos finalmente respirar de alívio, estava cumprida a missão mais difícil desta prova, agora era chegar e se possível dentro do tempo limite das 12h.
A noite chegou rápido, frontais acesos e caminhar os últimos 10kms por entre hortas e terrenos bravios ali junto à margem esquerda do Cávado até chegar a Barcelos, apenas caminhámos a um ritmo perto dos 6 kms hora, correr ali era quase impossível devido à noite e ao terreno muito irregular, mesmo assim deu para cumprir o objectivo de chegar dentro do tempo limite, 11,39,49h, para a distância percorrida de 62,260kms. Deixo aqui uma saudação amiga para o Pedras e para o Canhão pela entreajuda que nos permitiu chegar à meta com sucesso e em condições de a partir daquele momento começarmos a pensar já em próximos objectivos. Por mim estarei já no próximo Sábado em Barrancos na tentativa de superar mais um Ultra Trail de 60 kms, se bem qoe os avisos do nosso amigo barranquenho aquilo não vai ser pera doce, mas vamos à luta. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Maratona do Porto 2014

Com a Maratona do Porto assinalei a presença em 17 maratonas de estrada realizadas durante a minha vida de corredor a pé (26 anos), 13 das quais realizadas nos últimos 5 anos. Foi também nestes últimos 5 anos que me aproximei mais das provas trail realizadas um pouco por todo o país em desfavor das provas de estrada, contudo ainda conservo algumas como referência e que procuro nunca faltar, estão neste caso a corrida da Liberdade, o 1º de Maio, Corrida da Festa do Avante, S. João das Lampas e a Maratona do Porto, invariavelmente farei outras cujo objectivo é rolar na estrada com vista à realização das referidas provas.
A Maratona do Porto já vai na sua 11ª Edição, nas 5 últimas estive sempre presente, acumulava
com a de Lisboa, mas nos 2 últimos anos desisti de Lisboa com muita pena, o novo rumo organizativo que ela levou ainda não me cativou, com a agravante de a sua antecipação para os primeiros dias de Outubro ter vindo colidir com uma prova de trail que faz parte quase obrigatória das minhas preferências, a Serra D`Arga.
A Maratona do Porto para mim este ano teve mais uma vez o condão de a ver crescer, é uma satisfação enorme ver-me e encontra-me no meio daquela imensa multidão de atletas e de gente que ali vai à procura da sua identidade física e desportiva e na busca constante da sua superação. Não esperava já encontrar tanta disponibilidade de pessoas para enfrentar esta distância da Maratona, creio que este incremento muito se fica a dever à diversificação da corrida entre nós e que se desenvolve também no
estrangeiro com forte adesão popular como por exemplo as provas de Trail e Ultra Trail. É aqui que se ganha e garante a força e resistência necessitaria capaz de convencer qualquer um a tentar realizar mais tarde o sonho de todos os corredores, a Maratona de estrada. Depois cabe a cada organizador de maratonas convencer os potenciais aderentes e aqueles que ainda indecisos acabam por se dicidir. Neste particular a Maratona do Porto oferece as condições excepcionais para quem gosta de correr esta distância: organização, apoio aos atletas, diversão, respeito, carinho, segurança e tudo o mais que prende um atleta ano após ano, para o atleta estes são as condições ideais para se sentir bem e voltar sempre. 
A Runporto  merece pois todo o sucesso conseguido com muito trabalho ano após ano e isso como é notório tem sido premiado com a presença maciça de milhares de atletas em todas as suas realizações desportivas, nomeadamente a Maratona, é por isso que todos os que têm contribuído para o seu crescimento sonham fazer dela uma das maiores da Europa, o Porto tem todas as condições para que isso aconteça, oxalá nunca falte a força e a ambição àquele punhado de gente chefiada pelo Jorge Teixeira para que tal aconteça, por mim enquanto puder estarei lá.
Particularmente esta maratona pouco difere das anteriores, a meia dúzia de provas de estrada que faço por ano não me dão "estaleca" para sonhar com grandes resultados, depois os treinos normais que faço não passam pelo asfalto mas sim por terra batida em trilhos ou estradões, valem-me as provas mais longas que faço na montanha ou em trails longos de menor dificuldade, e claro, os resultados  traduzem depois essa realidade. As 4,46h que precisei este ano para percorrer a Maratona excedeu em apenas 1 minuto a marca do ano passado, tenho pois de concluir que foi muito positivo este desempenho. As dificuldades sentidas são as de um corredor normal, a primeira metade da prova com algum à
vontade e a segunda parte muito sofrível, neste caso uma dor muscular foi sempre a incomodar-me a partir do meio da prova, um brufene ajudou a minorar a dor e permitir que mais uma vez conseguisse atravessar aquele risco mágico de tão significado para todos os maratonistas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

AXtrail, Trail 42 kms Serra da Lousã em Castanheira de Pera


Era Meia noite e vi-os partir, uma sensação muito estranha pois nunca vira partir uma prova de ultra trail e eu ficar ali pregado ao asfalto a vê-los partir serra acima debaixo de um temporal bem invernoso, limitei-me a desejar boa sorte aos amigos, a conviver um pouco com alguns deles mas com a noção que também deveria estar ali ao lado deles e fazer parte daquela extraordinária aventura que lhes fora oferecida pela excelente equipa que realizou a prova, tirei fotos e realizei um pequeno vídeo da sua passagem do local onde me encontrava, pouco depois vejo-os embrenhar-se pelos trilhos citadinos à procura da mãe natureza situada a poucas centenas de metros na majestosa Serra da Lousã.
Vi nos rostos de cada um a satisfação de poderem partir e ir à procura de realizar mais um desafio  e ultrapassar barreiras do que está para além do imaginável, vencer o receio e o medo, porque não, mas também iam à procura da sua aventura onde o desconhecido era o aliciante principal e a superação das suas capacidades físicas nunca testadas até então, eram estes a maioria dos que partiram. 
Para mim acabava ali o primeiro dia de contacto com esta gente heróica que abalara e me deixara para trás à espera que no dia seguinte os voltasse a encontrar algures em plena Serra numa altura em que já se encontrassem no último terço da prova e onde as suas forças já reduzidas bem necessitavam do nosso apoio para conseguirem concluir com êxito este bonito desafio a que se tinham proposto concluir.
Regresso ao Pavilhão um pouco ansioso para dormir um pouco, no dia seguinte tinha lugar marcado para a partida do trail de 42 kms pelas 09.30h e queria descansar o máximo possível mas a tarefa não foi fácil, do tecto do pavilhão vem um barulho ensurdecedor, a chuva caía copiosamente deixando-nos apreensivos não só com os amigos da Ultra mas também por nós que partiríamos no dia seguinte, e para quem conhece a Serra da Lousã sabe bem que aquilo mesmo sem mau tempo não é uma pêra doce.
O nervosismo de muitos atletas que iam participar no trail depressa e bem cedo se começou a manifestar, ás 4h 5, 6, e 7h era ver a rapaziada a caminho dos balneários fazendo aquele barulho habitual acordando toda a gente, pelas 5h também lá fui e já havia alguém a banhar-se para preparar o corpo para acolher sem impurezas a sagrada água vinda da Natureza quando por lá se encontrasse, tentei ainda depois dormir mais um pouco mas foi impossível e resignei-me a esperar que chegassem as 7h para começar a preparar o que era necessário levar e também a ornamentação pessoal que normalmente também me acompanha.
Pelas 7h começam a chegar os primeiros desistentes do UTAX, eram fundamentalmente atletas já experientes mas que as mazelas adquiridas na prova os forçara a desistir, não era nada de grave
mas que se podia tornar complicado se continuassem em prova, para mim e para os outros do trail que iriam partir ás 9,30h era um mau pronúncio, era um sinal que o percurso a fazer ia estar mesmo muito mau, mesmo assim procurei afastar essas preocupações para bem longe já que estou habituado a apanhar o pior que se pode imaginar e onde é necessário o máximo cuidado e ás vezes alguma perícia, que no meu caso já pouco funciona devido à minha natureza de veterano já de idade avançada.
Na partida dei comigo a pensar que já devia ter quase 10h de montanha, é a 1ª vez que me desloco para um local e não participo na prova principal, uma situação muito estranha para mim, mas aqui eu tinha de ser muito realista, 24h para fazer esta prova era demasiado para mim, com a agravante de existirem dois controlos de eliminação pelo meio quase impossíveis de alcançar, ainda assim a organização decidiu, e bem, dar mais uma hora de tolerância devido ás péssimas condições do terreno e meteorológicas, depressa me concentrei que era esta que tinha pela frente e que sabia pelos relatos dos desistentes que a coisa iria estar muito "preta". 
Gostei de ver por ali muitos amigos e outros que também por o serem me escapam por a minha memória estar sempre a atraiçoar-me, por isso não me canso de lhes pedir desculpa por este defeito que tenho, dou só um pequeno exemplo deste apagão que de vez em quando aparece: no abastecimento de Telesnal, o 1ª deles, dois atletas chegaram e preparam-se para tirar uma foto, eu estava ali e depressa me puxaram para o grupo e para a foto, incluindo os simpáticos voluntários, a meu lado estava a Sónia Dionísio que não reconheci e por quem tenho muita admiração, mais tarde identificaram-me na foto e ela apareceu na minha página do Facebook, é assim lamentável.
A Serra da Lousã desta vez não me surpreendeu, esperava o pior mas depois de a percorrer a partir de Castanheira de Pera tenho a convicção que as 3 versões que conheço da Serra a partir e chegar a Miranda do Corvo é bem mais complicado devido à natureza do terreno e ás condições climatéricas que temos encontrado. Felizmente a organização do AXtrail não limitou a prova de
trail a ninguém, graças ao UTAX, que tinha 24h para se realizar, permitindo assim os atletas participantes a enfrentassem mais descontraídos e sem qualquer tipo de pressão, tanto assim é que pouco passava das 10h de prova chegava o último atleta juntamente com o "vassoura". 
O meu objectivo para esta prova era conseguir chegar ainda de dia, como precaução levei o frontal para precaver qualquer percalço e não conseguir este objectivo, por antecipação a organização também esteve muito bem ao incluir à última da hora o material obrigatório para esta prova de 42 kms, nomeadamente a manta de sobrevivência e o corta vento. A ordem de partida já foi dada com quase meia hora de atraso e isso começou desde logo a complicar as minhas contas, os primeiros metros nos trilhos foram caóticos, caminhos estreitos para tanta gente, filas com escoamento lento (quase que se justificava uma pequena volta pela Povoação para estender um pouco mais o pelotão), por mim estava bem assim, corria-se andava-se e eu também ia descansando as pernas. No ataque à Serra com estradões e trilhos espectaculares a Selecção foi-se fazendo cá atrás, provavelmente na frente também se fazia, mas aí a guerra era outra, a minha não a preocupação de ser o último ou não, era chegar de dia e depressa arranjei o meu ritmo com a ajuda dos bastões e vencer aquela primeira barreira que nos levaria aos 1.005 metros de altitude apenas com 5,700kms de prova
(partíramos dos 470 metros de altitude). Foi aqui que começaram a passar por mim os primeiros atletas da mini, partiram pouco depois de nós, fizeram-me companhia durante 2/3 kms até saírem do nosso trilho e virarem noutro com destino à meta. A chuva, o frio e o vento acompanhou-nos durante mais 4 kms até começarmos a descer para o 1º abastecimento que nos esperava em Telesnal, até lá dureza nas descidas, trilhos e estradões com muita pedra solta, lama e pequenos ribeiros, raízes e pedras com muito musgo, assisti a muitas quedas, todas bem sucedidas (até uma atleta chegou a ser surpreendida quando pisava uma lage  com musgo e ficou estendida sem saber o que lhe aconteceu, ia a falar ao telemóvel!!! Tínhamos percorrido até Telesnal o mesmo caminho que os ultra heróis tinham feito, notava-se já a degradação do piso devido também à sua passagem, estávamos agora na parte mais baixa de todo o nosso percurso (243 metros acima do nível do mar), era ali também que a Ultra e os nossos heróis voltariam para a esquerda e iam "visitar" parte do percurso que habitualmente é utilizado pelo Trail dos Abutres que se realiza habitualmente na últimas semanas do m~es de Janeiro de cada ano. 
Perto dos 20 kms de prova começo a encontrar atletas do UTAX, já trazem cerca de 70 kms de prova e vêm com sérias dificuldades, passo por 2 deles que já vêm a passo, provavelmente não
chegaram ao fim, perto dos 24 kms, 2º abastecimento, passo pela amiga Paula Fonseca tira-me uma foto e paro um bocadinho a falar com ela, esperava pelo seu companheiro de vida Carlos Fonseca, a sua expressão era de alguma preocupação pois ele não vinha bem, desejei-lhe sorte e subi aquela enorme escadaria (iria encontrar mais duas entranhadas no interior de aldeias de casas muito antigas e bonitas) até ao local onde estava o abastecimento. Ali já estava o sempre jovem Vitorino Coragem que mais uma vez não receou aquela Serra que tão bem conhece e os 109 kms que a abraçam quase de uma ponta à outra, era o digno e único representante sexagenário presente em prova a merecer da minha parte rasgados elogios, depressa partiu pois faltavam-lhe ainda 35 kms e um controlo de eliminação pela frente, não vacilou e venceu com grande brilho mais esta dura batalha.
Aproveito este 2º abastecimento para comer bem pois vinha uma das partes mais difíceis da prova, estava com 5,20h de prova e a previsão final apontava para chegar ainda de dia à meta. mas depressa começámos a subir para o ponto mais alto da Serra por trilhos muito difíceis, incluindo uma levada espectacular com um diâmetro de caudal de água de 1 metro quadrado, durante mais de 1 km esta levada acompanhou-nos com a água a correr em sentido contrário ao nosso e não raras vezes serviu para beber e refrescar sempre que estava à altura da nossa cintura, depois foi trepar Serra acima até chegar ao alto, a meio desta começa o frio e o vento a fustigar e o nevoeiro já lá está também mais acima, 2 elementos da organização estão ali no estradão onde desembocava o trilho por onde seguíamos, informa que no alto o frio é muito intenso, parei e com a sua ajuda vesti o corta vento mesmo por cima da t,shirt molhada que levava vestida e depressa continuei a
marcha, pouco depois chego ao cimo sem conseguir ver nada em volta, olho para o Garmin e marca-me 1.215 metros de altitude, creio que erradamente pois o registo que tem gravado vai só até aos 1.186 metros, ainda assim foi ao ponto mais alto que alcancei em prova. A partir daqui já levava um companheiro de corrida, chegou numa boa altura, a pouco mais de 2 km tinha outra montanha para escalar, segundo o gráfico que nos acompanhava, mas dali não se via nada pois o nevoeiro escondia tudo o que estava à nossa frente, assim, descemos um pouco para voltar a subir e dar por encerrado este capítulo das subidas que culminava exactamente aos 30 kms de prova, o resto seria a descer. 
O atleta que seguia comigo era inexperiente em provas longas, 30 kms era o seu máximo e seguia com dificuldades evidentes, levava em mente desistir no abastecimento dos 31 kms mas seguindo o
exemplo de quem vai comigo não fica para trás consegui convencê-lo a prosseguir até à meta, incluindo chegar de dia já que ele não tinha frontal para enfrentar a noite se ela entretanto caísse. Foi neste tom de conversa que chegámos ao abastecimento depois daquela tormentosa descida de quase 2 kms de pedra solta e trilho muito estreito mas ao mesmo tempo com uma vista espectacular agora que o nevoeiro eo frio tinham ficado para trás. 
Logo que partimos deste 3º abastecimento para a etapa final e depois de assegurar que este amigo que me acompanhara os últimos kms tinha partido e abandonara de vez a ideia da desistência parti à procura de baixar das 10h de prova e chegar ainda de dia à meta, para isso contei ainda com uma condição física excelente naquele momento que me permitia correr onde era possível a 6 minutos o km, contei ainda com a companhia de um atleta do UTAX  durante alguns kms naquela parte final mas depois fui mesmo embora para chegar o mais rápido possível, valendo aquele cenário espectacular do rio que nos
acompanhou até quase cortar a linha de chegada.
Finalmente depois de andar por ali um pouco ás voltas após a espectacular passagem do rio vislumbro a meta pela mesma rua por onde tínhamos saído à algumas horas atrás, uma sensação muito agradável, excelente recepção por parte de todos os presentes que me sensibilizaram, não mais os vou esquecer.
Terminava assim mais uma prova com intensidade elevada, 42,700kms e o tempo de 9,12,50h. com 12,57 minutos por km.
Apraz-me registar que o amigo que querias desistir acabou por chegar acompanhado do "vassoura" e estava feliz por ter terminado, também eu fiquei feliz por ele.
Espero agora chegar à Maratona do Porto recuperado e fazer um bom desempenho, o qua não será nada fácil, ali são 42 kms corríveis e isso anda pela hora da morte, mas vamos la!!!