
"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram mas na intensidade com que acontecem". (Fernando Pessoa)
Foi esta a palavra de ordem escolhida pela Organização para apresentação da prova, foi este o espírito que me levou à Serra da Freita no dia 27 de Junho para disputar uma competição de sonho , viver uma aventura sem pressões e com a intensidade possível pelo empenho de cada um.
Esta extraordinária aventura tornou-se dramática para a maioria dos participantes, cerca de dois terços não concuíram a prova, (eu incuído) e dos que terminaram cerca de um terço chegou fora do controlo, não tendo por isso sido classificados.
É verdade que todos nós conhecíamos o Regulamento, distância total, postos de controlo e tempos de passagem entre cada um deles. Isso todos nós sabíamos e foi naturalmente fácil escrever isso tudo no papel, agora aquilo que a gente não sabia era a dimensão pavorosa do percurso que em nada daquilo podia encaixar nas metas obrigatórias traçadas pela organização técnica da Prova.
No breifing da véspera todos foram aconselhados a serem moderados e gerirem bem o seu esforço porque se assim não fosse aos 40 kms a tendência era para a desistência por quem lá passase ou chegasse. Atitude louvável em termos de aconselhamento e o orador e responsável técnico (José Moutinho) nem sequer escondeu a dureza da prova e ingenuamente todos, alegremente, acreditámos que era possível ultrapassar aquilo.
Transposto tudo isto para o terreno foi fácil de concluir (que a partir dos 20 kms de prova) ninguém conseguiria atingir os seus objectivos traçados, nem aqueles que a própria Organização tinha planificado como projeção, quer para os primeiros classificados quer para os restantes participantes.
A pressão dos tempos de passagem tirou beleza à prova, nem estou a balizar por mim, mas para muitos que eu sei que se prepararam muito bem para esta competição. Todos começaram com prudência porque era a 1ª vez que a prova tinha 70 kms e cerca de metade da prova tinha um traçado novo que era do desconhecimento da quase totalidade dos participantes, rapidamente nos apercebemos que o controlo de passagem era apertado a partir dos 20 Kms e foi a partir daqui que o prazer da corrida acabou e foi substituído pelo pesadêlo de não se conseguir chegar ao próximo controlo a tempo de não ver barrado a sua passagem. Esta dura realidade muito poucos estavam à espera, com o avolumar das dificuldes gastaram-se energias desnecessárias para se ir conseguindo passar em todos os crivos de controlo com consequências dramáticas para alguns na parte final da prova.
A Organização técnica da prova tem de admitir (o que é difícil) que ouve um erro grave de avaliação entre a planificação e a realidade no terreno, a dureza do percurso, (discutível),
justificava uma abertura maior de espaço entre cada controlo por forma a que todos tivessem oportunidade de participar e concluir.
A previsão da Organização para a chegada dos 1ºs eram as 7, 15h. e só próximo das 9 horas de competição é que chegaram os dois primeiros (Alcino e Carlos Sá) e mesmo assim feitos em "fanicos", os seguintes foram chegando com intervalos muito prolongados, mais de um terço tinha desistido ou chegado fora do controlo logo aos 40 kms, 5 horas para fazer 20kms foi manifestamente exigente para quem só nesta fase tinha que ultrapassa três montanhas a roçar em média os 1000 metros, a alguns deles faltou-lhes a coragem e a força para continuarem, aos outros foi impossível chegar ali e prosseguir pois tinham ultrapassado o limite de tempo permitido.
A saga das desistências prosseguiu mais à frente nos 50, nos 60 e 65 kms. Aqueles que iam conseguindo ultrapassar os filtros arrastavam-se galhardamente e com alguma heroicidade para conseguirem concluir, (mesmo que dramaticamente soubessem que iriam chegar para além do limite de tempo permitido pela organização). A crueza e a violência da desclassificação de todos os que chegaram para além das 15 horas é um atentado demasiado cruel à dignidade de cada um deles que sofreu a bom sofrer para vencer aquela dura batalha. A Organização Técnica da prova devia estar orgulhosa de tais feitos de gente tão abnegada.
E era tão simples resolver isto e só por teimosia é que se manteve esta mancha que considero de muito grave, bastava acrescentar ás 15h regulamentares o tempo gasto pelos 1ºs entre as previsões iniciais e aquele efectivamente gasto (1,45h) e ninguém era desclassificado e a prova mereceria nota positiva por todos os que lá estiveram.
Se querem um prova de Elite então digam-no e aparecerá sempre alguém que tenha por objectivo treinar para competições a valer fora do nosso país, no máximo 10 a 20 pessoas, manter este modêlo é matar a esperança de muitos atletas que tinham nesta prova a oportunidade de irem evoluíndo nesta variante da corrida e assim vêm frustradas de forma inglória as suas ilusões.
Que prazer tem uma organização que vê chegar e classificar menos de um terço dos seus participantes? Alguém fica contente com isto? e os patrocinadores?
A Ultra da Serra da Freita é das coisas mais bonitas e bem organizadas que eu já vi, o empenho e a dedicação do principal responsável (José Moutinho), sem esquecer os seus colaboradores e patrocinadores, foi inescedível e louvável, ele, o homem não merecia o desfecho que aquilo teve, honra seja feita ao Moutinho desportista, não fugiu e enfrentou a torbulência com dignidade na defesa dos seus pontos de vista, as consequências para o futuro da prova por certo serão muito ameaçadoras e provocará uma fractura difícil de sarar se entretanto não ouver a coragem de corrigir alguma coisa que ainda seja possível, e aqui o Moutinho tem a última palavra e acção.
Continua... a minha história