terça-feira, 8 de abril de 2014

Maratona de Trilhos de Almourol

Apetece-me chamar a esta preciosidade de trilhos, do Nabão, do Tejo e de Almourol, poderia ainda acrescentar também do Zêzere mas não o faço porque a visita foi curta e não deixou saudades (adiante explicarei), de resto poderei dizer que ao fim várias participações nesta prova fiquei surpreendido por ver e desfrutar de tanta coisa bonita que ainda estava por descobrir. Ainda bem que há última da hora consegui uma inscrição oferecida pelos amigos do Atletismo Clube de Portalegre para esta prova, tendo a honra de os representar. 
A partida, ao contrário das edições anteriores teve lugar a escassos 500 metros do lado norte do pontão da Barragem de Castelo de Bode, um pelotão compacto com cerca de 350 atletas a chegarem rapidamente aos primeiros obstáculos da prova onde apenas podia passar um atleta de cada vez, aos 3 kms o 1º embaraço, virar à esquerda com passagem junto ao leito do rio Zêzere local pouco técnico mas que gerou logo ali uma fila infindável que chegava quase aos 50 metros no estradão que lhe dava acesso, logo ali foram "queimados cerca de 20 minutos, como se não bastasse à saída deste troço com cerca de 500 metros nova dificuldade e nova fila para subir uma pequena enseada com a ajuda de uma corda onde só podia passar um atleta de cada vez, mais uns minutos queimados e definitivamente por força destes estrangulamentos a prova decorreu sem mais embaraços até chegarmos ás margens do Nabão onde encontrámos de novo um local de difícil transição ultrapassado com a ajuda de uma corda e onde a solidariedade entre os atletas se fez notar com a entreajuda a funcionar extraordinariamente, isto só foi possível porque naquele local a fila também se formou até aos últimos lá chegarem. 
O Nabão era apenas conhecido pela generalidade dos atletas com a passagem em ponte improvisada magistralmente (muito segura) ali junto à foz com o rio Zêzere pelos militares de engenharia sediados em Tancos, mas a organização dicidiu este ano oferecer-nos a contemplação e passagem pela sua margem norte durante alguns kms, muito técnico e difícil, mas eu gostei imenso desta inovação, como de outras que tive oportunidade de verificar, foi ali que encontrei um dos elementos da organização que estava vigilante e a ver se tudo corria bem, pouco antes tínhamos passado um obstáculo difícil com cordas, dando os incentivos a todos, principalmente aos que vinham mais atrasados como era o meu caso. Nesta altura já a organização se penalizava pela confusão gerada ao km 3 e foi ali que o reconhecimento do erro começou a gerar a necessidade de se melhorar aquele traçado em próximas edições, até porque há alternativas no local sem ser necessário mexer no resto da prova.
Em Constância, 21 kms, as dificuldades acumuladas já pesavam bastante nas pernas, os pés, os joelhos e também os rins já começavam a reagir mal àquilo que era preciso fazer, tinha sido bastante duro chegar até ali mas pelo que conhecia do percurso o pior já estava para trás. mas logo a seguir a Constância virámos para junto do leito do rio Tejo, foi mais uma surpresa para mim pois nunca tinha feito aquele trajecto à beira do rio, ( provavelmente devido ás cheias do rio em anos anteriores), eram uns trilhos espectaculares que para além de planos também nos oferecia bonitas paisagens ali junto ás margens que ligam Constância à Praia do Ribatejo passando ainda pelo Castelo de Almourol  cuja passagem é obrigatória pela beleza e esplendor deste bonito monumento nacional e que dá o nome a esta extraordinária prova de trail. A partir daqui o percurso tem novas alterações, principalmente a sua parte final, atravessava agora uma zona a sul da Base Aérea nº3 de Tancos, com sorte, pois consegui observar o lançamento de 2 paraquedistas em queda livre ali mesmo por cima de mim, o arvoredo dificultava um pouco mas mesmo assim pelo que vi levou-me a gratas recordações do passado, da Base, dos aviões que a partir dali nos levavam para o espaço e permitiam realizarmos o sonho de saltar e ganhar um símbolo que nos orgulha para o resto da vida que é a Boina Verde.
Aos 35 kms chego ao penúltimo abastecimento, dali em linha recta consigo ver o Pavilhão onde estava instalada a meta mas dizem-me que ainda faltam cerca de 9 kms para lá chegar, longe estava eu de pensar no que ia ainda encontrar, quando já tinha deixado as serras para trás e via ali ao lado o casario pensava que ia agora pela vázea abaixo até encontrarmos o acesso à ponte ali juntinho ao Pavilhão, foi assim nas edições anteriores, mas não, virar de novo à direita e subir, subir até já não haver mais montanha,
depois inicia-se o calvário de lama e mais lama, nunca na vida tinha encontrado nada igual, mais de mil atletas das 3 provas já ali tinham passado antes de mim, seguíamos o leito de rios onde não era possível desviar, os túneis sob as diversas estradas que servem para a passagem das águas dos rios eram os mesmos que serviram para nós passarmos, de cócoras ou de pé era obrigatório por lá passar, nunca me deu tanto prazer o contacto com água como ali, a lama era tanta até quase aos joelhos que aquilo era um alento enorme no meio de tanta dificuldade, mas era momentâneo, no final de cada túnel a lama voltava de tal forma que só pude libertar-me dela já perto da meta quando atravessei o rio.

Apenas chegaram 17 atletas atrás de mim, ainda ultrapassei muitos destes ao longo do percurso, alguns faziam a prova de trail com esta dimensão pela 1ª vez, daí o excesso enicial mas vi em todos uma grande determinação em concluir, cheguei a ouvir reclamações à organização em Constância que os atletas tinham sido enganados com um percurso diferente do habitual, não levei aquilo muito a sério mas o certo é que muitos foram surpreendidos com a inovação da prova, por mim achei espectacular aquilo que me ofereceram,
trilhos muito bonitos e diversificados quer na mata quer no arvoredo, autênticos túneis de florestas, trilhos cujos nomes estão bem identificados onde apenas consegui decorar um, o da àgua, já conhecia de edições anteriores mas é sempre um prazer enorme observar aquilo. 
O abastecimento fornecido e o apoio em todo o circuito foram excelentes, em todos os locais onde poderia haver algum engano por distracção lá estava alguém a ajudar-nos a seguir o caminho certo ou dos vários perigos que se aproximavam.

Na chegada à meta já muito cansado e com pouca reacção do corpo ao fim de 8,33h. soube-me bem a reacção e aplauso de quem ainda ali estava mo Pavilhão, principalmente da Organização, foram muito simpáticos. Vinha receoso com a eliminação, tinha 7h. para concluir mas cedo concluí que não era capaz, a prova teve 44kms, mas mesmo com estes 2kms a mais da maratona e o tempo de espera nos pontos negros se não existissem
o resultado não seria diferente, também aqui a Organização esteve muito bem ao classificar todos aqueles que chegaram mantendo de pé toda a estrutura montada para o efeito dentro do Pavilhão, um gesto que demonstra muito respeito por todos, pelos que chegaram na frente e pelos que chegaram no fim deixando uma imagem muito agradável a todos os que lá estiveram.

7 comentários:

JoaoLima disse...

Parabéns por mais uma, amigo Adelino.
Esses locais são muito bonitos, em especial o Nabão (tenho que puxar a brasa à minha sardinha, ou como quem diz, à minha terra!)

Um abraço

Nuno Garrana disse...

Melhor comentário seria impossivel. A organização excelente! O percurso divinal! para o ano estou lá outra vez ;) Saudações!

República dos Bananas disse...

Parabéns camarada. Fico grato por teres gostado da prova, pois pertenço à direcção do clube e ando à procura de comentários, para em futuras edições tentar melhorar o que possa ter corrido mal, ou menos bem.
Cumprimentos
Paulo Rebelo

Special One disse...

Parabéns pelo fantástico relato da prova, pois desta vez pude associar ao seu texto o que eu próprio passei naqueles 44kms!!
Tive o prazer de fazer os primeiros 2 ou 3 kms ao seu lado, sem no entanto termos trocado qualquer palavra, mas uma vez que era o meu primeiro trail longo, achei que o melhor seria poupar no inicio para conseguir chegar ao fim.
Também tive o prazer de ter uma grande recepção pela organização e pelos poucos atletas que ainda restavam no pavilhão à minha chegada, pois já cheguei depois de si!
Cumprimentos
Paulo Alves

Corro, logo Existo disse...

Parabéns pela prova.

O tempo não interessa nada. O mais importante é conseguirmos atingir o objectivo a que nos propusemos e divertirmo-nos a alcansá-lo.

Continuação de bons treinos e boas provas.

Fernando Varela

Sílvio Horta disse...

Parabéns pelo empeno gigantesto! Eu estive lá e confirmo a dureza da prova. Foi a primeira vez que ia fazer a distância da Maratona mas sai-nos uma Ultra Maratona! Um abraço e boa recuperação

Jorge Branco disse...

Estas descrições de provas do amigo Joaquim Adelino são excelentes! É como se estivesse-mos a fazer a prova!
Parabéns mais um excelente desafio superado!
Forte abraço.