terça-feira, 25 de outubro de 2011

Trail Serra D,Arga, A Natureza venceu-nos mas a Montanha continua lá...

A Natureza venceu-nos, mas a Montanha continua lá. É com este espírito que quero voltar áquela Serra completar o que a Natureza desta vez não deixou.
Já perto do final
O Carlos Sá já na vespera durante as jornadas técnicas sobre a corrida de Trail nos alertara para a possibilidade de ter de interronper a prova devido ás más condições climatéricas que se aproximavam. Claro que nesta altura e devido ao Verão tardio que temos vivido não acreditávamos que isso fosse possível, mesmo no Sábado, véspera da prova, o tempo estava magnífico no local, mas contra todas as previsões que eu fizera o Domingo apareceu muito cinzento e ás primeiras horas da manhã, 06h, já começava a cair as primeiras pingas de água e o vento já andava em turbilhão.
As minhas 2 últimas noites, só para não ir mais atrás, foram pouco ou quase nada dormidas devide a uma forte gripe que me tem afectado acompanhada de uma tosse constante e irritativa, mas como a vontade era inabalável não podia perder esta prova só por esse facto.
Carlos Coelho, fiel companhia
Em DEM, freguesia que tem este nome está situada na base da Serra D,Arga foi o local escolhido pela Organização para ser o centro de toda a logística da prova de Trail que compunha a Maratona, um trail de 20 kms e uma Caminhada. Cheguei ao local vindo de Caminha onde tinha pernoitado num Pavilhão escolhido pela Organização pelas 7,15h. a partida seria dada ás 08h. pela 8ª badalada do sino da Igreja.
Era visível à distância de menos de 1 km a montanha com que iríamos começar este Trail, metade dela já estava coberta de núvens negras que corriam velozmente antevendo-se as dificuldades que estavam à nossa espera. Nestas condições eu e o Carlos estabelecemos logo à partida um pacto de fazermos a prova juntos e enfrentar as dificuldades que a tempestade nos iria criar em toda a prova. Mesmo antes de ser dada a partida o Carlos Sá volta a frizar que a partir das 15h. esperava-se o agravamento do estado do tempo mas que deveria ser suficiente para todos passarem sem grandes problemas, o certo é que a Natureza (ou quem a analiza) nem sempre corresponde ao que se pensa dela...
Antes de iniciar o Trail em DEM
Antes da partida olhei em volta e só via, a maioria, vestidos como se fossem para o Alaska, eu apenas tinha duas t,sherts vestidas, uma delas de manga comprida, e interrogava-me se tinha tomado a melhor decisão, tanto mais que a forte gripe e a tosse ainda me apoquentava. Mas estava assim e depressa esqueci isso e concentrei-me na Montanha que estava ali à minha frente, o 1º km foi feito ainda dentro de DEM numa subida ainda ligeira para nos preparar para a escalada que se seguiria, quando entramos na Serra olho para trás e já não vejo ninguém, segue apenas ao meu lado o Carlos Coelho que por força do pacto teve de ficar por ali, à minha frente ouço o Vitorino Coragem a chamar-me, mas não havia nada a fazer, mesmo a andar e com a ajuda dos apoios a marcha ia nos limites, à nossa frente seguia o espanhol Francisco Serrano e a portuguesa Carla Monteiro, o Moutinho também ainda estava visível e os outros espalhavam-se Serra acima num espectáculo que deveria ser muito bonito mas que as núvens não deixavam observar. A Srra vai empinando, no início ainda ixestiam alguns carreiros mas a dada altura já não havia nada a não ser as fitas que nos ia guiando por onde devíamos passar. Aos 2 kms começa a chover, a condizer com a altitude das núvens que antes observávamos, era uma chuva até certo ponto agradável e o vento ainda era fraco neste lado da Serra, a subida ia tendo uma inclinação cada vez maior e a chuva pouco ajudava pois a qualquer momento podíamos sofrer alguma queda  e as coisas podia complicar-se. Perto do 3º km, já bem lá no alto,  é já visível as péssimas condições do tempo, vento fortíssimo com rajadas a atingir os 90 kms hora e a chuva a fustigar-nos na mesma proporção, 200 metros mais acima estava o cume desta 1ª grande dificuldade, (partimos de uma altitude de 267m (DEM) e chegámos lá acima a 716m em apenas 3.200 metros percorridas com o tempo de 45m.). Aqui fui encontrar o 1º abastecimento e 3 colaboradores que se esforçavam por se manter de pé face à tempestade permanente que também os atingia e à qual estavam expostos.
Reunidos no local da partida
Depois descemos durante os seguinte 5,5kms até chegarmos à cota dos 300m num tempo acumulado de 1,31h. esta descida foi fantástica sempre por cima de empedrado e em lages num percurso onde já estávamos protegidos dos malefícios da tempestade que se faziam sentir apenas do meio da Serra para cima. a meio desta descida deixámos de ser lanternas vermelhas e entregámos essa bandeira ao espanhol Serrano e à Carla. Aqui o Carlos Coelho ensaia as primeiras fotos mas depressa verificou que a bateria estava descarregada, deu apenas para tirar duas. É nesta altura que ficámos novamente com a lanterna dos últimos e assim continuámos durante os próximos kms,
Voltamos a subir de novo até à cota 584m +, foram mais 3 kms feitos em 45m. num tempo total de 2,13h. onde continuámos a andar mais e a correr menos devido à forte inclinação da Serra e também no meu caso à tosse que cada vez era mais frequente e irritante. No alto da voltamos a encontrar a tempestade, agora de frente onde o vento e a chuva dificultava a nossa progressão, ainda assim aqui e ali conseguimos correr até atingirmos o topo. Logo de seguida iniciámos uma descida com 5 kms, novamente em lages por trilhos romanos, onde agora o vento era forte que se foi desvanecendo conforma íamos descendo a Serra, esta descida levou-nos atá à cota mais baixa que percorremos, 148m, num total acumulado de 2,59h. para 17 kms
Participantes nas Jornadas Técnicas sobre o Trail
É nesta altura que apanho a grande desilusão, informam-me que a prova tinha sido cancelada a partir dos 20 kms, (no alto da Serra aos 27 kms de prova o vento tinha rajadas permanentes a mais de 90kms, a visibilidade era nula a mais de 2 metros e a chuva era torrencial). Seguimos agora na margem direita de um Rio com um grau de perigosidade muito elevado, a lama e as pedras escorregadias impunham-nos o máximo cuidado, o Carlos cai num buraco e fica enterrado até à cintura, eu ia um pouco mais à frente e não me apercebo, sei que passei lá e por sorte meti o pé no meio do buraco e aquilo aguentou-se, mas ele não se aleijou e isso é que importa. Até final foi só a frustação que nos acompanhou, imagino como não ficaram os da frente que foram até ao limite do possível mas encontraram lá o Carlos Sá responsável da prova e muito experiente a informá-los que não era possível passar porque poria em risco elevado todos aqueles que tentassem enfrentar aquela fúria da Natureza que estava instalada no alto da Serra. Sábia decisão que evitou por certo desagradáveis acontecimentos e em que foi preservada a integridade física de cada em detrimento do espectáculo. De louvar esta atitude inteligente de um homem experiente e da sua equipa mesmo sabendo que todos os que estavam ali era pela aventura e esta situação encontrada faz parte dela. 
Terminei estes 19,740kms em 3,40,42h. a uma média de 11,10m por cada km.
Classificações

5 comentários:

João Paulo Meixedo disse...

Um relato fidedigno.
Para o ano lá estaremos.
Aquele abraço.

Jorge Branco disse...

Segundo os alpinistas as montanhas não se vencem, por vezes os deuses das montanhas é que estão mais benévolos!
Nesse dia estarim, certamente, muito irritados mas é normal pois com o governo que temos até eles perdem a paciência!

Tenho uma pálida ideia do que posso ter sido isso pois já apanhei um temporal monumental na primeira edição do Crosse da Serra do Açor, no longínquo ano de 1996, quando as provas de montanha davam os primeiros passos em Portugal.

Grande abraço e cuidado com essa gripe!

Mário Lima disse...

Joaquim

Mais vale um pé no travão que dois no caixão, sempre assim ouvi. O Carlos Sá pela experiência que tem, achou por bem não colocar a vida de todos os corredores em perigo. Pelo teu relatado e pelo que li em muitos outros fez bem.

Houve quem não tivesse gostado da decisão, mas se por acaso a prova continuasse e tivesse havido algum problema grave eu gostaria depois de ler o que seria dito pelo facto do Sá não ter suspenso a prova.

Como o dizes a montanha está lá, é só lá ir para o ano e vencê-la que ela não foge!

Abraços

luis mota disse...

Olá Joaquim!
Belo relato companheiro.
Também eu gostaria de voltar mas a nossa vontade não chega, pois o ano que se aproxima não dá para gastar grandes verbas, uma vez que, como sabe, eu é que suporto as despesas.
A proximidade vai ser a opção.
Grande abraço

José Xavier disse...

Caro Joaquim Adelino,

É isso mesmo, quem anda é a natueza e a Darga estará lá por muitos anos, e com saúde ainda vai fazer novamente essa aventura.

Um abraço
Dos Xavier' s