terça-feira, 29 de junho de 2010

Serra da Freita, O Valor Das Coisas


"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram mas na intensidade com que acontecem". (Fernando Pessoa)

Foi esta a palavra de ordem escolhida pela Organização para apresentação da prova, foi este o espírito que me levou à Serra da Freita no dia 27 de Junho para disputar uma competição de sonho , viver uma aventura sem pressões e com a intensidade possível pelo empenho de cada um.
Esta extraordinária aventura tornou-se dramática para a maioria dos participantes, cerca de dois terços não concuíram a prova, (eu incuído) e dos que terminaram cerca de um terço chegou fora do controlo, não tendo por isso sido classificados.
É verdade que todos nós conhecíamos o Regulamento, distância total, postos de controlo e tempos de passagem entre cada um deles. Isso todos nós sabíamos e foi naturalmente fácil escrever isso tudo no papel, agora aquilo que a gente não sabia era a dimensão pavorosa do percurso que em nada daquilo podia encaixar nas metas obrigatórias traçadas pela organização técnica da Prova.
No breifing da véspera todos foram aconselhados a serem moderados e gerirem bem o seu esforço porque se assim não fosse aos 40 kms a tendência era para a desistência por quem lá passase ou chegasse. Atitude louvável em termos de aconselhamento e o orador e responsável técnico (José Moutinho) nem sequer escondeu a dureza da prova e ingenuamente todos, alegremente, acreditámos que era possível ultrapassar aquilo.
Transposto tudo isto para o terreno foi fácil de concluir (que a partir dos 20 kms de prova) ninguém conseguiria atingir os seus objectivos traçados, nem aqueles que a própria Organização tinha planificado como projeção, quer para os primeiros classificados quer para os restantes participantes.
A pressão dos tempos de passagem tirou beleza à prova, nem estou a balizar por mim, mas para muitos que eu sei que se prepararam muito bem para esta competição. Todos começaram com prudência porque era a 1ª vez que a prova tinha 70 kms e cerca de metade da prova tinha um traçado novo que era do desconhecimento da quase totalidade dos participantes, rapidamente nos apercebemos que o controlo de passagem era apertado a partir dos 20 Kms e foi a partir daqui que o prazer da corrida acabou e foi substituído pelo pesadêlo de não se conseguir chegar ao próximo controlo a tempo de não ver barrado a sua passagem. Esta dura realidade muito poucos estavam à espera, com o avolumar das dificuldes gastaram-se energias desnecessárias para se ir conseguindo passar em todos os crivos de controlo com consequências dramáticas para alguns na parte final da prova.
A Organização técnica da prova tem de admitir (o que é difícil) que ouve um erro grave de avaliação entre a planificação e a realidade no terreno, a dureza do percurso, (discutível),
justificava uma abertura maior de espaço entre cada controlo por forma a que todos tivessem oportunidade de participar e concluir.
A previsão da Organização para a chegada dos 1ºs eram as 7, 15h. e só próximo das 9 horas de competição é que chegaram os dois primeiros (Alcino e Carlos Sá) e mesmo assim feitos em "fanicos", os seguintes foram chegando com intervalos muito prolongados, mais de um terço tinha desistido ou chegado fora do controlo logo aos 40 kms, 5 horas para fazer 20kms foi manifestamente exigente para quem só nesta fase tinha que ultrapassa três montanhas a roçar em média os 1000 metros, a alguns deles faltou-lhes a coragem e a força para continuarem, aos outros foi impossível chegar ali e prosseguir pois tinham ultrapassado o limite de tempo permitido.
A saga das desistências prosseguiu mais à frente nos 50, nos 60 e 65 kms. Aqueles que iam conseguindo ultrapassar os filtros arrastavam-se galhardamente e com alguma heroicidade para conseguirem concluir, (mesmo que dramaticamente soubessem que iriam chegar para além do limite de tempo permitido pela organização). A crueza e a violência da desclassificação de todos os que chegaram para além das 15 horas é um atentado demasiado cruel à dignidade de cada um deles que sofreu a bom sofrer para vencer aquela dura batalha. A Organização Técnica da prova devia estar orgulhosa de tais feitos de gente tão abnegada.
E era tão simples resolver isto e só por teimosia é que se manteve esta mancha que considero de muito grave, bastava acrescentar ás 15h regulamentares o tempo gasto pelos 1ºs entre as previsões iniciais e aquele efectivamente gasto (1,45h) e ninguém era desclassificado e a prova mereceria nota positiva por todos os que lá estiveram.
Se querem um prova de Elite então digam-no e aparecerá sempre alguém que tenha por objectivo treinar para competições a valer fora do nosso país, no máximo 10 a 20 pessoas, manter este modêlo é matar a esperança de muitos atletas que tinham nesta prova a oportunidade de irem evoluíndo nesta variante da corrida e assim vêm frustradas de forma inglória as suas ilusões.
Que prazer tem uma organização que vê chegar e classificar menos de um terço dos seus participantes? Alguém fica contente com isto? e os patrocinadores?
A Ultra da Serra da Freita é das coisas mais bonitas e bem organizadas que eu já vi, o empenho e a dedicação do principal responsável (José Moutinho), sem esquecer os seus colaboradores e patrocinadores, foi inescedível e louvável, ele, o homem não merecia o desfecho que aquilo teve, honra seja feita ao Moutinho desportista, não fugiu e enfrentou a torbulência com dignidade na defesa dos seus pontos de vista, as consequências para o futuro da prova por certo serão muito ameaçadoras e provocará uma fractura difícil de sarar se entretanto não ouver a coragem de corrigir alguma coisa que ainda seja possível, e aqui o Moutinho tem a última palavra e acção.

Continua... a minha história

10 comentários:

Anónimo disse...

Amigo Joaquim
apesar de tudo muitos parabéns por ter partido, o que interessa é que nada de grave aconteceu (tantas horas sem saber do "pára" não foi nada bom).
Quanto ao que refere penso que a organização terá resolvido classificar todos aqueles que terminaram (ver no fórum "o mundo da corrida").
Abraço,
António Almeida

Filipe Fidalgo disse...

Olá, Joaquim.
Já me tinha perguntado, onde pára o pára? É triste saber que não conseguiu concluir a sua prova de sonho, mas pelas fotos e relato que nos traz é sem dúvida nenhuma um sonho correr aquela prova.
Deixo-lhe uma pequena parte de um comentário do meu blog que, creio eu, se enquadra nas elações a tirar desta prova.
“…o facto de tomarmos consciência dos nossos limites torna-nos mais fortes e de certo mais capazes para os atingir da próxima vez..”

Um grande abraço

Vitor Veloso disse...

Amigo Joaquim,
Por estes dias estive sempre com o pensamento na Freita a tentar imaginar como estariam vocês a transpô-la.
Pois com tristeza ontem a noite quando falamos no MSN me disse que só tinha chegado ate ao 40km, por ultrapassar o tempo limite nesse ponto, assim dou conta que a Sr.ª Freita, uma prova dura.
Felizmente esta bem de saúde, isso é o mais importante.
Força amigo, a prova de sonho só fica adia.
Forte abraço
Vítor

.JOSÉ LOPES disse...

Boa tarde Joaquim

Parabéns pela participação e conclusão de 40km (maratona)só isto já é um acto de louvar.

Aqueles limites (se forem mal estudados para a maioria dos atletas) realmente podem condicinar a conclusão.

Saudações desportivas
J.Lopes

José Xavier disse...

Caro Joaquim Adelino;

Parabéns por ter feito essa bela experiência.
O facto de desistir não é negativo, é algo importante e muito humano sabermos o máximo do nosso organismo.
Infelizmente pelo que relatou aqui a organização cometeu erros que poderiam ser lesões graves para os participantes.

Certamente que os alertas dos participantes, serão bons para a melhoria dessa prova de sonho.

Um abraço amigo
dos Xavier's

Luis Parro disse...

Amigo Adelino,
Já em Badajoz, confraternizando com ultras espanhois, me foi referido que ao aumentar para 70Km com aqueles limites de tempo seria muito complicado para a maioria dos atletas, e veio a revelar-se que eles tinham razão....
Perder um prova por tempo, depois de treinar árduamente, deve ser um bocado complicado.
Mas como um Pára nunca Pára, vamos em frente e já está marcado um treinho para Sábado ás 7H30 para não perder a embalagem.
Um grande Abraço
Luis Parro

Jorge Branco disse...

Conforme diz o Eduardo Santos no Mundo da Corrida a prova deveria alagar o seu tempo limite para as 24 horas.
Se não querem ter uma prova para uma pequena elite de atletas com treino e condições físicas muito especiais deviam seguir esta ideia do Eduardo santos.

Carlos Pinto-Coelho disse...

Amigo Adelino,
Poucas palavras quero acrescentar ao que foi aqui comentado.
Disseste o que disseste e está dito e bem dito.
Este é um dos sonhos de muitos que como nós começaram nestas andanças há pouco tempo. E, perante impossíveis desta natureza obviamente procuraremos saciar a nossa sede algures, quiçá, no país vizinho. Considerem isto uma crítica positiva e uma visão realista dos factos. Para ti e para os teus pares, uma só palavra:
Grandes Homens!!!!
Até breve

Dona D disse...

Então Joaquim!!!! Detonando, hein!!!

Parabéns pela prova... deve ter sido realmente espetacular!!!

Você é mesmo um guerreiro!!!

Um abraço do Brasil!!!

luis mota disse...

Olá Joaquim!
Gostaria de o felicitar pela preparação que efectuou para esta prova.
Ainda ponderei participar, mas houve vários factores que me levaram a adiar a participação.
No domingo tentei saber de vós. Liguei para os participantes mas não devia haver rede.
Fiquei triste quando soube do desfecho da prova. Inicialmente a minha preocupação era de quem seria o vencedor. Apesar de ter vencido um Amigo Tomarense não poderei esconder a tristeza que fico de muitos não terem terminado.
Um abraço para todos os que partiram.
Luís mota