quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ota, Corrida do Mirante e a minha infância



Esta deslocação a Ota para participar na Corrida do Mirante foi muito mais sentimental do que o simples prazer de participar nesta competição, foi uma prova de Montamha e até podia apenas estar a pensar na Serra da Freita, mas nao, era a Freita e muito mais, este muito mais é um estigma sentimental pelo facto de eu ser natural daquela Região, nascido e criado até aos 6 anos de idade. Retenho desse tempo aquilo que não desejo a ninguém, necessidades e mais necessidades e onde a solidariedade humana ainda fazia algum sentido quando se tratava de auxiliar o próximo. Descalços e famintos era assim o dia a dia da maioria dos rapazes e raparigas daquele tempo sem que os pais pudessem fazer alguma coisa para pôr fim a tanta miséria, a Guerra tinha terminado à poucos anos mas ali nunca chegaram os benefícios por ela ter acabado, a sopa era feita de cardos quando não havia mais nada disponível e a carne ou peixe raramente chegavam à mesa, a Escola ficava a 5kms e não havia qualquer transporte. Lembro-me de ver na tenra idade ali perto da porta da minha pequena casa as buldosers do Exército em manobras mais parecendo um teatro de Guerra, de aviões militares a caírem (pelo menos2) já que ali fica o enfiamento da Base da Ota. Do meu Batizado ali na Ota com apenas 3 anos numa Quinta enorme ( na minha condição de minorca assim parecia), propriedade de uma Família muito rica com ligações a Dom Vasco e raízes à Monarquia, que periodicamente arrebanhava os miúdos das redondezas faziam uma festa no seu Salão principal e onde éramos batizados, seguindo-se depois um beberete onde era servido um Caldo Verde e sumos.
Foi esta vivência que revivi ali em Ota no passado Domingo, Ota não se transformou muito ao longo destes anos, a Base Aérea ali instalada ajudou a dar-lhe alguma projecção mas os traços essenciais estão lá todos, voltei agora e tive a felicidade de ver coisas que desconhecia, principalmente todo o cenário da Serra de Ota que serviu de base a esta magnífica prova e que dá pelo nome de Corrida do Mirante.
É uma Terra pequena mas que tem lá, ou teve, alguém com responsabilidades de gerir aquele espaço tendo sabido criar um lugar onde as pessoas podem usufruir de boas condições de lazer numa zona protegida onde a Natureza, por aquilo que tive oportunidade de ver, oferece excelentes condições para quem pretenda por ali passar alguns momentos de puro prazer.
Vou voltar lá, com mais tempo para correr e para visitar aqueles campos.
Dos meus amigos de então não conheço nenhum mas sei que eles andam por ali, familiares ainda restam alguns mas as dificuldades da vida obrigou-nos à separação, ainda nos vamos encontrando, infelizmente só quando algum de nós vai ficando pelo caminho!!!
Durante a Corrida a Ana Pereira e o Rui bem me diziam para seguir mas era ali que eu queria ir, devagar e acompanhado de 2 bons amigos, ao mesmo tempo que revivia tempos por ali passados, de vez em quando adiantava-me um pouco, por descuido diga-se, embrenhado nesses pensamentos que vinham e por lá ficaram.
Terminámos a prova com apenas 3 participantes mais atrás, qualquer de nós pouco se importou com isso, foi assim desde o início mas tivemos sempre o mesmo apoio e carinho que foi dado aos primeiros onde a Organização tinha assistência aos atletas, locais lindíssimos em ambiente de Selva com carreiros completamente cobertos de arvoredo e mato como eu tanto gosto.
Pouca importância tem mas aqui fica o registo da prova: 11,190kms para 1,37,34h.
Prossegue o caminho até à Freita, hoje foram 32 kms em 4h pelo Monte Serves, Cabêço da Rosa, e Serra de Covanas, a vida está difícil.
Fotos de: A.M.M.A. e de: Luís Santos

9 comentários:

António Almeida disse...

Companheiro
correr ao sabor de memórias que a região guarda para si, ainda que algumas não muito boas, fazem parte de si e decerto que o moldaram no ser humano que hoje é, obrigado pela partilha.
Continuação de bons quilómetros.
Abraço.

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

Tive muito prazer em conhecer "assim" um pouco mais o Joaquim Adelino, o convívio de quase 2 horas em prova, e agora por estas palavras.

Atrás de um rosto, uma história. Obrigada Adelino pela companhia em prova e por nos dar a conhecer um pouco mais de si, e da história do nosso país.

Um beijinho e bom feriado

Ana Pereira

Susana disse...

Uma bela corrida, na companhia de amigos, com recordações das origens. Essas bifanas ou sardinhas é que me estão a deixar água na boca!! Temos de visitar essa zona, é muito bonita.
Beijinhos grandes

JOSÉ LOPES disse...

Boa tarde Joaquim Adelino

Mais uma prova dura, um ensaio para outra ainda mais dura.
Numa zona cheia de recordações de infância.

Esta realizada comuma boa companhia.

Pena é que se tenha colocado à frente da Ana naquela foto. :))

Bons treinos
Com os cumps
J.lopes

luis mota disse...

Um bom regresso às origens. Essas provas têm muito significado.
Aproveito para enviar um abraço a todos os companheiros que participaram e desejar-lhe uma boa preparação para a Freita.
Grande abraço
Luís Mota

Vitor Veloso disse...

Olá Joaquim,
felicito pela participação acompanhado de boas recordações da infância passada nessa zona, sempre bom relembrar as nossas origem nos bons e maus momentos passados.
Grande abraço
Vitor Veloso

José Xavier disse...

Caro Joaquim Adelino;

É sempre bom voltar às raízes. É bom desfrutar desses momentos num ambiente de muita natureza.

O resultado registado é o que menos importa, porque a ponta final com essas sardinhas vale por um dia bem passado.

Um abraço dos Xavier's

Fernando Andrade. disse...

Bonita estória, amigo adelino. É bom recordar, mesmo os tempos difíceis, pois, como disse o António, são eles que nos moldam.
Mas andas-lhe a dar forte...andas,andas! 4h !!! olha que assim não sou homem para te acompanhar na Freita.
Abraço.
FA

Mário Lima disse...

Adelino

Histórias de um tempo em que a mesa não era farta, que as dificuldades dos pais para criarem os filhos era muita pois um ditador assim o quis dizendo:

«Livro-vos da guerra mas não vos livro da fome».

Foi um recordar e como bem o dizes, tens que lá voltar para "ler" nas pedras os caminhos por ti percorridos nesses seis anos que lá estiveste.

Mais uma prova em boa companhia e uma preparação que tendo Freita como horizonte servirá também para o outro desafio que será Melides/Tróia.

Ainda não estou bem da lesão. Vou aguardar mais uma semana e começar a tentar correr. O meu objectivo imediato é fazer a Ultra, mas será que a farei?

Pelo menos vou tentar treinar até lá, mas se não o conseguir outros desafios surgirão no futuro.

Abraços!