segunda-feira, 8 de março de 2010

Trilhos de Almourol, para ficar na memória.

Descendo à Base da Barragem C.Bode
Há 22 anos atrás quando comecei a correr estava longe de imaginar (e provavelmente a grande maioria de nós) que chegaríamos a ter ao nosso dispôr as valiosíssimas competições que se vão disputando (ou usufruíndo) pelo nosso Portugal inteiro. Destes 22 anos dediquei 21 só praticamente a provas de estrada e apenas a partir de Maio do Ano passado, (Meia Maratona da Areia), comecei a percorrer outro caminho que não aquele.
Para eu aqui chegar muitos outros tiveram de
desbravar o caminho para tornar isso possível, organizações e atletas mais ousados estão sem dúvidas na linha da frente e tal como na Maratona haverá sempre alguém que dará o exemplo e procure incentivar os mais indecisos e temerários para caminhar a seu lado.
A estrada, sendo ainda um meio prevelegiado de adesão à maioria dos corredores e atletas, começa também em certa medida a entrar na desmotivação e saturação para muitos de nós levando-nos a procurar outras formas alternativas de continuar a correr aliando esse prazer à necessidade de ir resistindo à tendência de um certo conformismo de aos poucos cada um de nós ir ficando pelo caminho, não da vida mas desta coisa bonita que é sofrer correndo e que nos alimenta a vida.
Sicó foi na Semana passada ali juntinho a Condeixa a Nova e pensava eu que aqueles 30 kms tinham atingido um grau de dificuldade para mim que dificilmente existiria outra, (que eu fizesse) que a superasse em termos de dificuldade, puro engano, bastou participar no Trail Trilhos de Almourol de ontem, 07/03, para mudar radicalmente de opinião e ainda falta a Geira Romana, que estando no meu horizonte ainda não está totalmente encaixada. Para além desta nova realidade que é para mim este novo caminho é o facto de ter já conhecido alguns daqueles a quem eu chamo de heróis da aventura, aqueles e aquelas que palmilham trilhos e estradas, vales e montanhas ermanados num só objectivo, vencer mais um desafio e testar os seus próprios limites de resistência humana, não falarei em nomes (ontem estive com alguns), que me desculpem, mas têm de mim um respeito enorme e de grande admiração.

TRILHOS DE ALMOUROL
Começo por saudar aquela grande equipa que é o CLAC por nos terem proporcionado a oportunidade de participar naquela excelente iniciativa que foi o Trail dos Trilhos de Almourol.
Viu-se desde a 1ª hora a preocupação para que tudo corresse bem, o Brito e a Otília estiveram à altura na condução de todo o evento e acompanhados de pessoas muito competentes,
Foz do Rio Nabão, ponte móvel
quer na logística quer ao longo do percurso nos foram apoiando minimizando assim as mazelas que a cada momento íamos sentindo.
Durante a Semana passada tinha recebido um "olhe que não, olhe que não" com uma intrigante sugestão "se não existem montanhas de 400m inventam-se" fiquei desconfiado mas confiante pois quem tinha trilhado Sicó certamente Almourol trilhado não deixaria de ficar.
A nossa equipa era composta por 4 elementos, mas era a minha filha Susana que mais me preocupava, tinha-lhe feito este desafio em tempos mas sabia que actualmente a forma não era a melhor para enfrentar este desafio, (o máximo que tinha feito até aqui foi até à Meia Maratona) mas foi corajosa e acompanhou-me.
Mesmo para quem está psicologicamente preparado para estes desafios não deixa de reposicionar o seu pensamento quando lhe dizem que a prova tinha mais 3kms que o inicialmente previsto, 35kms. (agora terminada a prova posso dizer que foram 40kms e mais uns pózinhos).
Não choveu, não fez frio, não fez sol, nem o vento quis aparecer, tudo a nosso favor. O Elísio Costa cedo abalou bem como o Mário Lima e fizeram bem pois eu e a Susana ficámos para trás e quando abordámos a 1ª subida aí a 500 metros já só tinhamos meia dúzia de atletas atrás de nós, foi aí que começámos a tirar fotografias que vão ficar na memória e registadas no album desta bonita prova.
Subida com inclinação acentuada
Ao mesmo tempo que ia decorrendo a prova e com as dificuldades a crescerem a cada metro eu e a Susana optámos por correr onde era mais acessível e andar onde o desgaste se tornava desnecessário, a localização dos abastecimentos, pelo menos até meio da prova eram suficientes, e com a ajuda dos meus pequenos bidons estava salvaguardada a nossa sobrevivência até lá.
Com umas pequenas paragens, para fótos e abastecimento na zona da Barragem de Castelo de Bode para apreciar aqueles gigantescos fluxos de água que saíam directamente para o Rio Zêzere, dando-lhe assim outra vida, chegámos a uma das zonas mais difíceis e técnicas onde correr era praticamente impossível, pelo menos para mim, eram troncos atravessados, buracos com água e lama, ziguezaguiar constante por entre arvoredo num cenário extraordinário que Natureza tem a bondade de conservar para regalo dos nossos olhos, pisar terrenos mesmo ao nivel do caudal do Rio onde tivemos a possibilidade de ver ali atracado um pequeno barco e que
noutras circunstâncias nos teria passado despercebido, passar por uma ponte móvel ali na foz do Rio Nabão foi outra das bonitas surpresas que tive e ajudou a amainar (esqueci por breves momentos) um certo sofrimento que já começava a sentir na parte moscular superior das pernas, ali estavam elementos da organização e os militares com uma balsa prontos para intervir caso fosse preciso, pois penso que aquilo ali e considerando a força das águas pode tornar-se perigoso.
Descida complicada para a Barragem
Pouco mais à frente, 20kms, estava o 1º abastecimento sólido com tudo pronto à nossa espera, um pouco antes saímos da estrada que vem de Constância e encontrámos uma autêntica parece com uma inclinação a rondar os 40%, tinha para aí 15m mas que a lama e pedras soltas dificultou imenso, pensei logo que era o preço a pagar para merecer o abastecimento que estava logo ali a seguir, tinha mesmo de subir e um sorridente fotógrafo lá estava no pico para registar a carantonha que cada um ia fazendo.
A partir de metade da prova o percurso melhorou um pouco, ou pelo menos o 3º terço, altura em que aos 22 kms disse à Susana para se ir embora, era perceptível que ela já ia a necessitar de soltar um pouco mais e o meu andamento já estava a ficar penoso para ela e assim foi, partiu e ainda lhe recomendei para ter em atenção as marcações nos percursos, no final vim a saber que duas ou três vezes teve pequenos enganos.
Quando cheguei à zona de Tancos é que percebi que o Castelo de Almourol tinha já ficado para trás, ainda olhei mas já era tarde, pouco depois encontro o abastecimento em Tancos, veio-me à memória o meu tempo de tropa, o Regimento de Paraquedistas ali perto e a linha do combóio que ali parava como o principal meio de transporte para nós.
Penoso foi o palmilhar aquele trilho ali ao lado da linha naquele constante serpentear da encosta, num sobe e desce onde nas zonas mais baixas sobressaíam rios de água e lama abrindo sulcos no estradão tornando mais penosa a nossa progressão. É aqui que começo a avistar o Mário Lima, já ia em forte quebra e eu fazia os possíveis para pensar que não estava pior que ele, um pouco mais à frente ia a Rosa Pratas.
Com a infatigável Otília aos 31,5kms
Depois de virarmos à direita e deixámos a linha e o Rio Tejo para trás começaram as grandes dificuldades, naquela zona já estamos para além dos 30 kms, a Rosa engana-se no caminho, corta à esquerda, o Mário que era o que estava mais perto apercebe-se e chama-a, ela não ouve é um pouco surda e levava os fhones nos ouvidos, o Mário já muito debelitado, (dor num ombro) e nas pernas também, corre, corre atrás dela, para não a deixar ali perdida e consegue trazê-la de volta à corrida, merece aqui um bravo, um bravo daqueles que o ajudaram a formar.
As dificuldades continuaram, umas atrás das outras, muros gigantescos uns atrás dos outros, eu já não conseguia descer a correr e a subir só andando, terreno plano era raro então que fazer? correr onde era mais acessivel.
Aos 31,5kms estava o último abastecimento, lá estava a Otília no apoio incansável, passei por ela em 4 locais diferentes, em todos eles foi de uma simpatia contagiante, daqueles que nos enche alma e ali estava ela mais uma vez, preocupada porque ali estava o 2º abastecimento sólido e quando lá chegámos as laranjas estavam inteiras e eu tive de agarrar uma, descascá-la e depois deitá-la abaixo, a Otília ainda procurou por uma faca mas não havia nda a fazer, de somenos importância.
A partir dali sigo sempre com a Rosa Pratas, o Mário continuava com dificuldades e foi-se ficando, a Rosa foi uma companhia importante pois as dificuldades já eram enormes e à vez lá fomos puchando um de cada vez, ainda tentei algumas vezes conversar, até para ver se a distância se ia eleminando com alguma distração, mas por mais alto que falasse ela não me ouvia, mesmo sem os fhones, e assim continuámos até ao final.
Almoço merecido dos Pára&Comando com a família Almeida, a Vitória estava atrás da câmara
Aos 37 kms saímos da Serra e atravessamos as primeiras casas, já via a meta ali a 1km, puro engano, 38!... 39!... 40!... e um nunca mais acabar, eu só já pensava era na Susana, fomos para lá a pensar em 35 e eu já ia nos 40kms. Um pouco antes atravessei um ribeiro de água quase gelada que dava pelos joelhos, que bem me soube, veio arrefecer e acalmar os pobres pés e retirou alguma lama que ainda vinha agarrada aos ténis.
Ouve ainda tempo para percorrer o trilho das gatas, aí com 500 metros de extensão para evitar que corressemos 100m em alcatrão antes de chegar à meta, bem pensado trilhos são trilhos.
Na recta final lá estava a Vitória, ainda não a tinha visto, e a Isabel no apoio e a registar a minha chegada, fiz questão de chegar ao lado da Rosa Pratas, trocámos um beijo de agradecimento mútuo e a partir dali comecei a curar as mazelas e a procurar a Susana e saber como ela estava, descobri-a depois de tomar banho, estava ali mesmo à porta à minha espera preocupada comigo, tinha abalado aos 22 kms e já tinha chegado à 40 minutos, numa lástima mas chegou.
Considerando em 50% o número de quedas durante toda a prova da nossa equipa (duas e éramos 4), presumo que o número de quedas em geral foi muito elevado, mas felizmente pareceu-me sem consequências de maior gravidade, esta situação é reveladora do grau de grande dificuldade que tivemos de enfrentar, felizmente fui um dos que se salvou de ir ao tapete, mas que andei lá perto lá isso andei.
Total acumulado altimetria de altitude: 1678 metros
Total acumulado altimetria de descida: 1788 metros
Total de distância oficial: 38kms
Total de distância (garmin) 40,130kms
Tempo gasto para fazer a prova: 5,34,48h. (recorde de tempo em corrida)
A próxima corrida é já no próximo Domingo em Vila Franca de Xira, nas Lezírias.
O próximo grande desafio: Maratona Carlos Lopes em 11 de Abril.

16 comentários:

Vitor Veloso disse...

Olá Joaquim,
E de agradável satisfação ler suas palavras acerca dos trilhos de Almourol.
De facto foi uma prova muito dura, de principio ao fim. Muitas "paredes" tanto como subidas ou descidas!!!
Apesar das adversidades fez uma bela prova os meus parabéns.
Agora e recuperar do esforço, boa semana
Abraço
Vitor Veloso

BritoRunner disse...

Pois é Adelino "olhe que não, olhe que não"

Espero que tenha gostado, os kms a mais foram devido a alterações de última hora na vespera e no próprio dia.

Obrigado pela presença

Saudações trailianas
José Brito

MPaiva disse...

uim,
Grande Joaquim,

Muitos parabéns por ter superado esse difícil desafio com sucesso e pelo magnífico e expressivo relato que nos deixou da sua participação.

abraço
MPaiva

Ricardo Baptista disse...

Olá Joaquim,
Parabéns pelo relato e por ter superado este desafio.
Por mais duro que o desafio seja o Joaquim vai conseguir sempre superar, afinal é um pára! há algo mais duro que um pára?
Um abraço e vemo-nos na Carlos Lopes, que pra mim vai ser uma prova de consolação por não ter ido aos trilhos do Almourol...
Mas não é a mesma coisa...

Anónimo disse...

Olá companheiro
parabéns pela prova e pelo acumular de corridas de longa distância no último mês, esta então foi mesmo especial, digo eu...
Um prazer igualmente rever o "pára" e restantes companheiros.
Grande abraço e beijos das meninas.
António

José Xavier disse...

Caro Joaquim;

Este seu relatório, foi uma delícia. A importância que dá aos pormenores do percurso e organizativos, levou-me a uma vivência, de como eu estivesse lá a apreciar tudo. O que transmite é de uma felicidade contagiante e muito bonita.
É bonito termos esses locais em Portugal, e que muitos não aproveitem, o prazer de fazer desporto e estar em contacto com a natureza.

Forca para os próximos desafios.

Um abraco amigo dos xavier's

Tiago Silva disse...

Parabéns amigo Joaquim, mais uma vez tive o privilégio de me deixar levar por mais um envolvente relato de uma grande aventura.

Mais uma vez nos provou que nada o pára.!

Os meus grandes parabéns.

Um grande abraço e boas recuperações.

Anónimo disse...

olá Joaquim
parabéns pela prova.
foi excelente revê-lo em grande forma. estava era com uma pedalada a mais para o meu passo :) ainda alimentei esperança de lhe seguir na peúgada, mas que nada, este pára não pára mesmo ...!
votos de uma óptima recuperação, as pernas curam-se depressa, o problema é a vontade em fazer mais coisas destas assim que a terminamos. é o vício danado. mas temos que abrandar e usar a cabeça par ao descanso.
um abraço
até breve
ab- tartaruga

Fábio Pio Dias disse...

Olá Joaquim,

Vou tornar-me repetitivo, mas outro excelente relato e uma excelente prova, que pelos vistos foi ímpar e gratificante.

Um abraço e bom descanso depois desta tarefa"trilhos" árdua mas decerto recompensadora pela envolvência com o meio e na presença dos amigos!

luis mota disse...

Olá Joaquim!
Uma prova na companhia da filha é algo de valioso que conto também um dia efectuar.
Independentemente das dificuldades, que dever ter sido muitas, a entreajuda e a companhia ajudaram a alcançar o objectivo.
Agora é marcar o sábado de Páscoa para o GP de Constância e voltar a visitar tão bonita região.
Uma boa semana para vós,
Luís mota

Mark Velhote disse...

olá Joaquim,

Este relato acompanhado das fotos é de fazer inveja! parabéns por mais este desafio concluído!

1 abraço

Mark

Jorge Branco disse...

Uma maravilha essa descrição da prova.
Ainda fiquei com mais vontade de lá ir para o ano se o “esqueleto” e a vida me permitirem.
Um abraço.

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

Muitos parabéns Adelino!

Uma pessoa (eu) a lê-lo sabe o que sinto não sabe?
Pois... um dia ainda hei-de acompanha-lo nestas andanças, pois ao lê-lo fico com água na boca.

Um beijinho, boa recuperação e até domingo nas Lezírias

Ana Pereira

Susana disse...

Olá pai! Parabéns pelo resultado e obrigada pela Odisseia que passámos! Muitas as dificuldades sim, mas adorei a experiência. Depois disto só posso dizer que somos uns Valentes!
Beijinhos

Mário Lima disse...

Joaquim

E o Pára lá apanhou o "Comando". Eu bem tentei fugir mas não tive hipóteses, estavas imparável.

:)

Belo relato da prova, duríssima, ainda mais porque ainda não nos tínhamos recuperado do esforço da semana anterior.

Tens (temos) que voltar lá para o próximo ano para veres Almourol lá do alto. Ir e não ver é um "pecado".

:)

Dizias tu para treinar nem que fosse 30' no dia seguinte, fui ontem e "viva" o velho. Fiquei logo cansado. Depois vi umas poças e umas subidas pensava que estava em Almourol e comecei logo a andar, é psicológico!!!

:))))))))))

Boa prova Joaquim, as mazelas vão-se curando e não deixaremos de seguir em frente com a equipa. As dificuldades existem para serem vencidas e todos nós da equipa, das outras equipas e individuais que participaram são uns vencedores!

Abraço e até domingo nas Lezírias.

João Paulo Meixedo disse...

Deve ser, de facto, uma prova magnífica. Aquela sua foto a atravessar a ponte faz inveja a qualquer Indiana Jones.
Um grande abraço.